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Release/Histórico
Personalidade Uma capa ilustrada com personagens sem cabeça, coisa que parece ser uma alusão ao "Fresh fruit for rotting vegetables", dos ícones punks californianos Dead Kennedys. Um artista que se apresenta em seu primeiro disco solo com nada além do apelido graças ao qual todo o underground carioca o conhece: Nervoso. É de assustar velhinhas e manter qualquer mané longe, parecendo anunciar barulheira, não é? Mas "Personalidade", de "Nervoso" , traz é combustível para amantes do rock gaúcho contemporâneo, pérolas para apreciadores de boas doses de melancolia-mais-humor e garantia de satisfação a gente que não é muito afeita a afinação-por-afinação. Quer saber? Pedida muito boa para quem gostou do "Bloco do eu sozinho", o segundo dos Los Hermanos. Produção independentíssima, "Personalidade" abriga sete faixas. Começa com "Dauntempo", uma instrumental que soa como gozação com a batida/levada eletrônica de nome parecido: donwtempo. A escolha é do ouvinte: relaxar ou começar a pensar que está ficando séria essa história de empurrar música eletrônica para as massas. Bom começo, assinado exclusivamente pelo dono do disco, como é também o caso da faixa seguinte, "A visita". "Fiz esta música pensando em Nelson Gonçalves", surpreende Nervoso, depois de dizer que, de um modo geral, o disco é fruto da vontade de fazer o que ele tem vontade. É a velha história: numa banda, cada um tem que ceder e muito raramente consegue dar à luz exatamente o que deseja. Com Nervoso não foi diferente nas quatro bandas pelas quais já passou oficialmente: Beach Lizards, Acabou La Tequila, Matanza e Autoramas. Não significa que ele não tenha se divertido ou que tenha feito inimigos, significa que ele precisava ficar sozinho para... fazer sua, digamos, homenagem a Nelson Gonçalves. "Clube da luta" vem em seguida, mantendo o clima e provando o ecletismo como ingrediente dominante na formação do artista. Parceria dele com Simone do Vale e tendo o (também do Autoramas, como ela) Gabriel Thomas em valiosa participação na guitarra, "Clube..." traz um desempenho vocal mais "sério". É isso mesmo, apesar de Nervoso brincar com essa história. "Minha voz... é complicada. Não é que tenha sido difícil de gravar, gravei de primeira", brinca o moleque tatuado de 31 anos e torcedor do Botafogo, pai do também alvinegro Guilherme, de 2 anos, que participa do disco na faixa "Mais justo". "Esta eu fiz pro meu filho e tem a voz dele sampleada lá no miolo", aponta Nervoso. Periga a letra fazer com que as pessoas no tal underground carioca passem a chamá-lo de "Coruja" em vez de "Nervoso". Paternidade é isso aí. Guilherme com certeza vai gostar do lance quando crescer."Bom veneno". Puts, seria um pai capaz de destilar uma espécie de pretensão de suicídio no mesmo disco em que declara amor pelo filho? O cara seria quase o cúmulo da dualidade humana... "A música é mais do Renato do que minha", explica, referindo-se ao amigo e parceiro no Acabou la Tequila. Influenciado por Tom Waits, "Bom veneno" teve sua base preenchida por pedaços de metal catados numa oficina mecânica perto de onde foi gravado o disco. Meio que para darmos uma segunda relaxada, no miolo do disco tem "Elizabeth", outra instrumental. Como o próprio Nervoso explica, "um clima Cocteau Twins", um pouco explicado no título que é uma referência à cantora daquela banda e uma homenagem à irmã do dono do disco. O ótimo som de órgão de igrejinha foi alcançado com um Casio daqueles bem vagabundos. Para terminar, uma do tipo "mexa no computador" e veja no que dá, "Well...It’s summertime!!! (a tribute to SimSynth)". Para terminar, não, já que "Personalidade", o disco, faz a gente querer que se trate apenas do começo. Que Nervoso nos dê muito mais.
Adilson Pereira (jornalista e sócio da loja de discos “Bolacheiro”)
P.S.: A capa do disco é obra de Flávio Flock. O autor da capa do último disco de João Donato usou, para ilustrar "Personalidade", um
TOM WAITS, BEATLES, WEEN, DAMNED , NELSON GONÇALVES, ROBERTO CARLOS, LOS HERMANOS, FRANK JORGE, MUTANTES, JÚPITER APPLE, ATARI TEENAGE RIOT, JR TOSTOI, SQUAREPUSHER, CARNE DE SEGUNDA, ACABOU LA TEQUILA E POR AÍ VAI.