Release/Histórico
Quem viveu os anos 80 sabe como foi: cada esquina uma banda, cada banda um estilo, uma cara, uma alma.
O bairro de Jordanópolis, em São Bernardo do Campo, não era diferente. Aliás, a efervescência lá era maior ainda. Sabe como é: fim do bipartidarismo, chegada do PT, comícios, o jovem operário querendo se expressar…
As informações chegadas da Londres Berço do Rock eram darks, mas como tinha poesia e lirismo naquelas letras do Morrissey e naquelas guitarras do Marr. Como um ato tão impensado pode criar o maior ícone da cena underground dos 80, o Ian Curtis. Como o punk dos Pistols foi tão bom para aquela mocinha de cabelos arrepiados e seus Banshes.
As pessoas estavam descobrindo novas facetas para o já tão experiente ritmo pelviano. Acordes dissonantes, sabe? Três notas, sim! Pra que mais?
Você leu Allan Poe? E Oscar Wilde? Então, lemos todos eles. E Kafka e Sartre e Baudelaire. Assistimos aos filmes do Buñuel, Murnau, Wim Wenders (Als das Kind Kind war).
Novas facetas? Ah, aqui tinha o Ira! Quanta ira! O Nasi no começo usava camisa estilo mod: abotoada até o pescoço. Depois abriu uns três botões, engordou. Mas o importante eram os acordes do Edgar, Gang of Four puro. E as letras bregas mas doces e poéticas: são tolices o que penso sobre você.
Como tinha banda no Brasil (por ordem de lembrança) Mercenárias, Kafka, 365, Legião, Garotos Podres, Finis Africae, Hojeriza, Vultos, Violeta de Outono, Cabine C, Titãs do Iê Iê, Azul 29, Blitz, Barão Vermelho, Fábrica Fagus, Gueto, Inocentes, Olho Seco, Kid Abelha, Paralamas, Biquini Cavadão, Smack, Felini, Voluntários da Pátria, Picassos Falsos, Devotos de Nossa Senhora Aparecida, Ratos de Porão, Ness, Nau, Patife, Harry, Gang 90, Cólera, Não Religião, Magazine, Camisa de Vênus, Ultraje a Rigor, Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, Laura Finochiaro, Kiko Zambianchi, Megatom, Bebê Zebra, Jeep Tala Larga, Capital Inicial, TNT, Luna, Musak, Zero...
A partir de 86, tinha também o Sufrågio.
O Rey e o Ricardo Mesquita se juntavam na escola e parece que não tinham o que fazer. Vamos montar uma banda. O Naldo topou e já disse, “serei o batera”. 4, 3, 2, 1: Sufrågio d’alma. Sabe o que significa? Orar pelos mortos. Mas sufrágio universal é voto mesmo.
Shows no ABC e comícios do PT marcam o começo. Baile de debutante, niver da prima com direito a Lula e Celso Daniel na platéia. Shows no circuito alternativo de lá acontecem ainda nessa década. Front 575 e Television são casas queridas. Na Metodista tinha um boteco (que Zeus o tenha), o Rondas. Até lá tocaram e foi duca. E mais comícios, partido Verde, fala sério!!! Show de buela.
Nessa época a Somara já tinha ido a um certo baile e viu um carinha. Pensou "É o homem da minha vida". Era o Rey, mas como ele estava de olho em outra garota ela concluiu "Ah, é o irmão, o Ronaldo". Até hoje estão lá, agora de AP novo. Que os Deuses abençoem.
Depois Sampa. Acho que o primeiro foi no Arcênico. Depois vieram Madame Satã/ Morcegóvia/TheThe, Borracharia, Alternative, botecos na Vila Madalena, Juke Joint, Marrou, Funhouse, Matrix. Só casa chique. Ateliê do Marcio Moura (deu polícia, of course), inauguração do AP do Mônica e do Deme (esse foi antológico), as pessoas chegavam ao AP pelo som que ouviam pelas ruas próximas.
No AP do Leandro foi acústico. O Deme filmou. No borracharia teve uns episódios: treta com uma bandinha da moda, Pixies com Pastel para lavar a alma (what a fucking gig), parece que foi o maior público da casa. E para fechar com chave de ouro, que rufem os tambores, garrafada na parede após solo alá Lee Ranaldo. Resultado, fim do show no meio, corte pequeno mas sanguinário no indicador direito. Hora de repensar a chapação antes das apresentações. Que nada, a galera gosta.
Uma história cheia de alegrias, modesta parte da cena, porque não dizer? De uma banda pequena mas com muitos participantes: primeiro Ronaldo Andreatta, Reinaldo Andreatta e Ricardo Mesqu