Release/Histórico
Quem disse que perguntas precisam de respostas?
Começo de banda é tudo igual, as coisas vão acontecendo espontaneamente aos trancos e barrancos. Uma pessoa tem a idéia de chamar um amigo, que traz outro, aparece o primo de alguém, enfim... Com o Que Fim Levou Valdir? não foi diferente. Aliás, isso é até estranho porque a similaridade do grupo com qualquer outro pára por aí.
Esses tempos vi um velho e conhecido crítico musical defender sua teoria de que somente ao olhar a foto de uma banda ele já sacava se ela era boa, ruim, ou ainda, a linha que ela seguia...
Coitado, nunca cruzou o caminho de Pedreira (voz), Julio (guitarra/voz), Ferrai (guitarra), Beto (bateria) e Carlo (baixo). Ao olhar para um retrato deles, o que se vê são cinco elementos que não demonstram seguir tendências de moda ou uma inclinação que indique qual o gênero que seguem. E ao ouvir o som tem-se a confirmação dos indícios do critério visual: um enigma – tal qual a indagação que compõe o nome da banda.
Formado há quatro anos em São Paulo, depois de um CD-demo (em CD-R) distribuído a R$ 3, o QFLV? debutou em CD com este auto-intitulado. Lançado numa parceria entre a Balboa Discos e a Elementar Records, a estréia vem com 10 faixas cavalares. Se inicialmente o quinteto tinha uma orientação mais hardcore, os anos, experiência nos palcos e influências pessoais foram amadurecendo, rendendo uma sonoridade própria. Estão ali, mesmo que implicitamente, as referências vindas do hardcore nacional (Mukeka di Rato, Discarga e Paura), mas o metal mundial também, seja o que rompeu barreiras um dia (Pantera) ou aquele que o renova atualmente (Atreyu e Trivium).
Ao colocar o CD para tocar há uma típica introdução instrumental que abre os discos de metal, mas sua seqüência, “Um Minuto e Pouco” (literalmente sua duração), começa a entortar a cabeça do ouvinte. Afinação baixa, velocidade e alternância no andamento fazem parte da base, assim como – conforme diz o encarte – os berros/gritos/urros de Rodrigo Pedreira ao colocar os demônios pra fora. As letras “são simples palavras”, como é repetido na empolgante “Conceitos Incertos”, sem rimas prontas, mas que misturadas formam questionamentos, críticas ou até devaneios pessoais. Partindo disso, e em meio a bases cadenciadas e/ou velozes com econômicos e precisos solos de guitarra, nascem “Libertação”, “A Queda” e “Ser Você”.
Peculiaridades e variações de levadas podem ser encontradas em canções como “Bushidiot” e “Depoimentos a Um Psiquiatra”. Assim como em “Pão e Circo”, porém nessa eles mostram similaridades a nomes como Sepultura, Krisiun e Claustrofobia, então nada de retidão: a ginga brasileira natural confronta com o metal extremo e garante bom resultado.
O disco encerra com uma bonita calmaria instrumental tão intrigante quanto seu nome (“A Palavra É Dezenove”). Ela age como aqueles questionamentos que são lançados ao ar e por lá permanecem, afinal de contas nem toda pergunta precisa de uma resposta, tal qual Que Fim Levou Valdir?. Fim? Longe disso, eles estão só começando!
Ricardo Tibiu
Maio/2008
Fonte: http://www.hangar110.com.br (Sessão: Cultura)