lembranças sonoras
Lembranças sonoras
Foi preciso relaxar e fechar os olhos para remeter-me aos meus primeiros sons de um fantástico histórico de vida. Comecei a relembrar da forma lúdica, imagética e gostosa, de como se deu a trilha sonora da minha infância. Além do choro por respirar, que alimentava minha voz e pulmões, ouvia também o choro e movimentos de meu irmão. Desde a barriga de nossa mãe, da época do chocalho e do grito balbuciado de um bebê que eu era, estranhando o novo universo do berço que me engolia e me jorrava para sentir-me no mundo.
Num repente veio me à luz algumas cantigas que minha avó materna usava para me acalmar: “Eu tava na peneira, eu tava peneirando, eu tava no namoro, eu tava namorando...” às vezes ela pegava em minha mão e olhando e apontando para a minha palma, me perguntava: "Cadê o toicinho que estava aqui?" eu respondia sorridente que o gato comeu. "_Cadê o gato?" "_Foi pro mato."_Cadê o mato? "_Pegou fogo." "_Cadê o fogo?" "_A água apagou." E essas perguntas pareciam não ter fim... Em outra situação cantava: “Dorme neném, que a cuca vem pegar, papai foi pra roça mamãe foi trabalhar!” Enquanto me fazia cafuné... São tantas saudades que emociono, sorte minha que sinto a sua essência comigo.
Minha mãe também cantarolava essas cantigas de ninar, porém um dos trechos mais marcantes em sua voz foi: “Mãezinha do céu... eu não sei rezar, eu só sei dizer que eu quero te amar...” Mas a que me encantava de verdade era quando ela cantava: “Se esta rua, se esta rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar! Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes! Só pra ver, só pra ver meu bem passar...”
No colo do meu pai adorava aquela brincadeira de “serra, serra, serrador, serra o papo do vovô!” Era bom ouvir sua voz e aquele balanço de mãos dadas com ele. Mãos ásperas de um trabalhor.
Daí eu segui em “Bate palminha bate, palminha de São Tomé!” Depois veio o primeiro “Parabéns pra você!“ E fui contando meus aninhos ouvindo o Balão Mágico, o palhaço Carequinha, “O Pato”, “A Casa”, “Aquarela” e outras tantas cantigas. Além de adorar pintar e usar o amarelo que para mim era o sol, astro que sempre admirei com meus olhos estrangeiros.
No jardim da infância, junto com os meus coleguinhas de classe cantávamos: “A barata diz que tem, tem, tem sete saias de filo é mentira da barata que ela tem é uma só. Ah! Ah! Ah! Oh! Oh! Oh! Ela tem é uma só!...” Hoje imagino uma barata com seus pés peludos, passando por sapatos de veludo.
Aprendi a cantar “O Cravo Brigou com a Rosa” sem apreender de fato o significado da metáfora inserida no poema. Nem me dava conta de que eram duas espécies de flores, representando de forma simbólica um casal discutindo a relação. Ah! Bons tempos. Agora sei que "o espinho da Rosa feriu Zé e o sorvete gelou seu coração" como disse Gil.
Também em minha inocência bucólica de criança cantava “Atirei o pau no gato tô tô, mas o gato não morreu...” e só mais tarde, no auge da adolescência, percebi o quanto era cruel àquela letra, em que a dona Chica admirava o berro que o gato havia dado, por ter recebido uma paulada com intuito de levá-lo para a terra dos pés juntos matando o chato bichano que miava.
Ainda criança ouvia o som que ecoava do quarto de minha irmã mais velha. Era o tal do Raul Seixas cantando que havia nascido há dez mil anos atrás. Isso me intrigava, deixava-me maluco, mas beleza, ele era uma metamorfose ambulante mesmo. Pois como podia alguém ser tão ousado e viver tanto tempo assim, tendo ainda um rosto jovem? Eu começava ali, a entender que os sentidos das palavras, para um poeta, muitas vezes transcendia o real. Depois virei fã e procurei conhecer mais sobre sua vida e obras. E hoje qualquer feriado é dia da saudade.
Pela cultura de minha cidade, nas vésperas de fim de ano era a época de festas de dezembro, das congadas e dos reisados... Como já cantava Milton Nascimento “era um, era dois, era cem, as vozes e os tambores no além...” batia tambor no congo até sangrar a mão e quando ouço o Milton soltar a voz na estrada de terra que só me leva nunca mais me traz. "Que vontade de não mais voltar, ir numa estrada que sobra: barro, pedra pó e nunca mais...". Como de costume os meninos da minha cidade se preparavam para dançar. Ora nas congadas, outrora fugindo dos palhaços da folia de reis. Mas me encantava mesmo era pelo os grupos de moçambique, cantando e chocalhando latinhas amarradas nas canelas. Participei também dos ternos de congo, pegando o final da fila que era reservado para as crianças, que trajavam o uniforme: chapéu de palha, botina, jeans e camisa branca. Tocávamos tambor ou pandeiro desfilando pelas ruas da pequena cidade.
Os versos dos congadeiros são louvores a algum santo, mas a gente brincava fazendo repentes e paródias. “Moçambiqueiro não come jiló, mas come coruja que é muito pior! Êh êh êh... moçambiqueiro não come jiló, jiló é amargoso matou minha avó! Êh êh êh....”
Quando estava por volta de oito anos de idade, comecei a tocar o violão que o meu pai havia comprado para minha irmã estudar, percebendo que eu levava jeito pra coisa e segundo ele tinha um dom, me colocou na aula de violão e o meu contato com a música foi ficando cada vez mais apaixonante, pois sentia um prazer enorme em tocar e cantar. Fui aprimorando meus estudos e aos quatorze anos estava preste a ganhar o meu primeiro violão. Saímos de São Tomás de Aquino, uma cidadezinha que na época deveria ter uns cinco mil habitantes contando com a zona rural e fomos para a grande metrópole: São Paulo, para que eu escolhesse o meu instrumento. Meu pai me levou na fabrica da Del Vecchio, boquiaberto com centenas de violões não sabia para qual olhar, encostar ou tocar, intimidei em meus acordes num canto ao experimentar os sons daquelas cordas. Mas escolhi entusiasmado um, agarrei-me a ele, sua mão, seu braço, seu corpo e sai de lá sorridente “sai por aí levando um violão debaixo do braço...” Lembrei de Zé Kéti e senti "mais de mil palhaços num salão" Quanta alegria e quanto riso.
De volta a minha comunidade onde povo ouvia muita música sertaneja e moda de viola, também ouvia... Só quê o que eu queria mesmo naquela época era aprender a tocar as músicas do Jorge Ben e da Legião Urbana e até sonhava com isso. Porem “um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão” e eu gostei por um tempo bom dos Engenheiros do Hawaí. Mas o que eu fui mesmo naquele tempo intensamente "era um lobisomem juvenil".
Na adolescência onde minhas paixões floresciam, tinha como distração as aulas de violão que surtiram efeitos mais tocantes e foi abrindo um enorme leque de escolhas de músicas e artistas. E comecei a escutar com atenção: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, Zé Ramalho, Barão Vermelho, Cazuza, D2, Moska, Titãs, Chico Science e Nação Zumbi, Tom Zé, Skank, Milton Nascimento, Toninho Horta, Tom Jobim, João Gilberto, Lô Borges, Los Hermanos, Lenine, Heraldo do Monte, Jim Hall, Projeto Alfa, Lanny Gordin... e entre tantos outros.
Abandonar as canções, jamais, este lanço novas que já estão sendo arranjadas. Atualmente mergulhei na educação musical "essa sua música é sua respiração" pensando com ar de Buarque acho que sim. Pois vivo de inventar esculturas sonoras, músicas, improvisações que exercito e expiro minha inspiração junto com a Orquestra Errante um laboratório de estudos musicais contemporâneos e experimentais.
Enfim, diversos estilos musicais me agrada pois amo os sons e estou desenvolvendo uma escuta cada vez mais crítica e atenta. Hoje suo para soar harmonicamente o meu próprio e experimental som, sou um compositor mineiro cantando a vida... e uma pequena parcela desde trabalhoso projeto musical em manutenção e mutação está no meu sítio da trama.
Atucse em breve.








