Em 1995, o guitarrista e vocalista Kaly, então integrante da banda punk Enzime, compunha diversas canções que destoavam da proposta musical do grupo. Decidido a usar esse amontoado de músicas de alguma forma, Kaly deu vida ao
Stuart, que tem grande influência de nomes do rock gaúcho, como
Graforréia Xilarmônica e
Júpiter Maçã, apesar de ser de Blumenau, Santa Catarina. Ainda como projeto de um homem só, o Stuart lançou um CD-r e um EP. Depois virou banda e, no ano passado, gravou o EP
Releitura do Tributo ao Cotidiano Chulo. Em entrevista à TramaVirtual, Kaly contou um pouco da história do Stuart.
Conte um pouco da história da banda. Quando surgiu o Stuart?Eu tocava desde 1995 numa banda punk chamada Enzime. E desde essa época compunha algumas músicas que não se encaixavam muito na linha da banda. Mas eu insistia tocando-as sozinho em festas, encontros de amigos, botecos. Sabe, aquela coisa violão, amigos, bebidas. Com o tempo elas meio que viraram clássicos na região e resolvi gravá-las apenas pra registrar e dar alguns CD-Rs para os amigos. A idéia de "banda" surgiu primeiramente com a idéia de convidar amigos para me acompanhar em shows, pra não passar vergonha sozinho. Ano passado resolvi fixar uma formação e é a que responde pela banda até hoje. Hoje, tirando as composições, que geralmente são minhas, as idéias, arranjos, opiniões e as atitudes são pensadas coletivas, como banda mesmo.
O que te influencia na hora de compor?Acho que nesse aspecto não sou nada inovador, não tem como ser: discos, filmes, livros, cotidiano, amores desperdiçados, bebedeiras, relacionamentos, jornalismo, etc. Geralmente são as coisas que vivo, que estão a minha volta. Gosto de tirar minhas conclusões e apontar a minha visão sobre as coisas. Não gosto de letras que dizem o que você tem que fazer ou pensar.
Antes do Stuart, você fez parte de algumas bandas punks. Como foi essa época?Foi maravilhoso, fiz muitos amigos no Brasil inteiro. Conheci lugares. Comecei a tocar em 1993, uma época ingênua e ao mesmo tempo ácida. Éramos crianças e o que fazíamos era realmente sincero. Eu aprendi muito nessa fase. Fiquei quase 10 anos na mesma banda, isso rendeu bons laços de amizades que vão durar pra sempre. Acho que o melhor disso tudo foram as amizades construídas. O resto eu não lembro, bebíamos muito. O punk me deu uma espécie de anti-base pra minhas músicas. Os famosos "três acordes".
Você também tem um projeto solo. São músicas que você não quis usar com as outras bandas?Eu adoro chegar em casa de madrugada, ligar a parafernália e gravar uma nova composição. Tenho muita coisa inédita gravada, outras eu lanço sem pretensão alguma. No site da TramaVirtual, por exemplo, eu as jogo do nada num link que ganha meu apelido,
Kaly. Na maioria das vezes, as músicas são amostras para o pessoal que toca comigo, geralmente se tornam músicas do Stuart, ganhando novos arranjos, uma cara mais "banda". Mas não é exatamente um projeto solo.
Quando você compôs o CD-R Trilha Sonora Para Nossas Vidas? E como foi gravá-lo?Eu tinha essas músicas há muito tempo. Todas que eu vinha compondo há anos e tocando às vezes. Tudo antes de divulgar o nome Stuart. Foi quando um amigo me apresentou a tecnologia de gravação por computador. Tudo que eu precisava era uma mesa de som e um microfone, além do computador pessoal com alguns softwares que ele mesmo me arrumou. Na época eu estava muito empolgado em aprender a mexer naquilo tudo. Aproveitei minhas músicas pra botar na prática. Saíram 12 músicas de lá. Dez eu lancei com o disco
Trilha Sonora Para Nossas Vidas. Achei que ficou legal, resolvi fazer uma capa e distribuir para os amigos. Foi tudo muito artesanal, beirando o tosco. Deu certo, a banda existe hoje por causa disso.
Como surge inspiração para letras como "mê dê um motivo pra não cheirar cola essa noite"?Gosto de fazer músicas a partir de frases que solto de inspirações momentâneas. Certa vez era verão, aqueles dias insuportáveis de tão quente, a cidade estava um deserto, o legal era estar na praia. Aí passei por uma danceteria e um pessoal fazendo panca de burguês com seus carros maquinados. Olhei pra essa gente e disse "porra, quem vocês pensam que são? Os ricos estão na praia!" e surgiu "Os ricos estão na praia". "Um bom motivo..." foi quando uma garota me chutou a bunda. Ela não gostava que eu me envolvesse com drogas e bebedeiras, mas no dia em que ela me chutou eu me perguntei, "tenho um motivo pra não cheirar cola essa noite?". Acho que se eu cheirasse cola seria a melhor vingança, a pior das ofensas.
O Wander Wildner tocou com você no primeiro show do Stuart?Na verdade foi o contrário. No primeiro show do Stuart, eu ia abrir pra ele. De repente, eis que surge o velho sozinho com um violão nas costas e sem banda. Aí ele me convidou pra tocar com ele. Foi no Curupira Rock Clube, clássico absoluto! Isso na época do primeiro disco dele. Ele era um verdadeiro "On the road". Eu era fã do cara, desde os Replicantes, aí ele me convida pra dividir o palco, foi uma honra. Uso como marketing. Depois, tocamos várias vezes juntos na região. Em janeiro tivemos a oportunidade de fazermos uma turnê pelo Brasil juntos, foi muito bacana.
E como foi gravar o EP Eu Não Quero Ser Stuart? Novamente foi você que compôs as músicas sozinho?O processo de composição é o mesmo. O legal é que hoje eu chego com a idéia, letra e tenho um suporte pra trabalhar essa idéia com o pessoal.
Eu Não Quero Ser Stuart foi uma continuação do
Trilha Sonora Para Nossas Vidas. Tudo na solidão.
O Stuart tem um clipe, da música "Pés no Chão". Como rolou a gravação dele?O diretor insistia em figurino, atuação, roteiro, mas não deu, fomos pro bar e começamos a beber cerveja, depois fomos dar umas voltas no centro de Curitiba e filmamos tudo. Quando vimos o dia tinha acabado. Dias depois ele mandou pelo correio sem remetente.
Pouco tempo depois, o Stuart virou de vez uma banda. Como foi esse processo?Minha banda "oficial", o Enzime, tinha acabado. Até então o Stuart era uma brincadeira divertida. Comecei a sentir falta do clima "banda", ensaios, gravações de discos, turnês, aí resolvi que o Stuart poderia ser uma banda. Deu no que deu.
Releitura do Tributo ao Cotidiano Chulo foi lançado em 2004. Como foi gravar esse EP?Esse foi o primeiro como "banda". O nome diz tudo. Fizemos uma releitura de músicas que eu tocava sozinho, nas quais faziam parte do meu cotidiano chulo, e montamos o disco em casa. Gravamos tudo em casa. Foi um tributo ao tosco.
Já com a banda, vocês fizeram vários shows por Santa Catarina. Como foi esse começo?Teve duas fases. A primeira, que cada show tinha uma formação diferente. Ninguém era de ninguém. Eu convidava os amigos, ensaiávamos uma ou duas vezes e rolava o show. A segunda foi quando eu decidi estabelecer uma banda fixa, tava começando a levar mais a sério a parada. Desde agosto do ano passado estamos com essa formação. Eu acho que foi um novo começo, todo mundo se empenhou na parada e tem fluído bem assim. Cada show teve a sua história. Mas tudo valeu como experiência.
O Stuart lança o disco cheio em breve? Como vai se chamar?Está sendo mixado, vai ser lançado em 2006 pela Pineaplle Discos, de Porto Alegre. A gravadora do Astronauta Pingüim. O disco se chamará
Honestidade Não Enche a Barriga e tem a participação do Wander Wildner, do Pingüim, e alguns músicos locais. Dezesseis músicas no total.
E quais são as novidades da banda?Estamos lançando um single em novembro, quero que seja no mesmo dia do filme
Walk in the Line, do Johnny Cash, no cinema americano. Só pra fazer um marketing.