Input_output é o trabalho “solo / individual / de-um-homem-só” de Douglas Dickel. Membro da guitar band Pelicano e da Blanched, de pós-rock, o gaúcho criou o projeto para exercitar seu lado mais autoral. Seu primeiro CD,
Eu contenho todos os meus anos dentro de mim, foi lançado no final do ano passado pelo selo Open Field, ligado à distribuidora
Peligro. Misturando elementos acústicos e eletrônicos, e buscando promover um árido diálogo entre o experimentalismo e a canção, o disco pode parecer “difícil” para ouvidos leigos. Dickel afirma que de fato busca certo “estranhamento”. Mas isso não quer dizer que seu som seja impenetrável. Em entrevista à TramaVirtual, o músico explicou o projeto.
Como você define o input_output?É o meu projeto musical "solo / individual / de-um-homem-só", no qual eu posso criar exatamente aquilo que eu tenho em mente, sem as interferências que inevitavelmente ocorrem em projetos coletivos. São processos igualmente interessantes, mas completamente diferentes. É o Douglas Dickel em música, em sons. Completamente autoral. Sou eu.
Por que deu esse nome ao projeto?Um amigo, o Muriel Paraboni, me falou do conceito de input e output, de um filósofo contemporâneo, não tenho certeza se é o Lyotard ou o Baudrillard. Não lembro exatamente, também, como é o tal conceito, mas sei que gostei da minha interpretação dele e da sonoridade do nome, além do visual, com a separação feita com o underline. A minha interpretação seria algo como "somos a soma das nossas referências": a criação é um output que só existe por causa de inputs anteriores, desde o nascimento. Tem a ver com o inconsciente e as teorias do Jung. Tem a ver com o título do álbum,
Eu contenho todos os meus anos dentro de mim.
Quais as influências?Todas e nenhuma. Tudo o que foi input na minha vida influenciou, mas ao mesmo tempo não pensei em nada específico na hora de criar, penso sempre em buscar o que ainda não existe, mesmo que não tenha sucesso, que acabe me aproximando de alguma referência musical. Quando aconteceu o big bang, o estalo inicial da primeira composição - que foi a descoberta da estática de rádio como elemento musical -, eu justamente estava atrás de um som que não existia, então felizmente o resultado da minha criação me pareceu esse som que eu queria ouvir mas que ainda não tinha sido feito. Minhas bandas preferidas eram Sonic Youth, Radiohead, Nine Inch Nails, Massive Attack, Godspeed You! Black Emperor. Quando fui entrevistado pelo André Gomes, do site português Bodyspace.net, ele me perguntou sobre a direção eletrônica do disco, e foi a primeira vez em que eu pensei nele nesses termos. A partir daí fui atrás de artistas eletrônicos que já faziam coisas mais aproximadas do que fiz, como o duo finlandês Pan Sonic e os artistas que fazem a IDM. Hoje eu diria que o input_output é eletrônico (ou eletroacústico), e estou ouvindo muitos artistas eletrônicos interessantíssimos, e o disco é finalista do Prêmio London Burning 2005 na categoria Melhor Disco de Eletrônica, mas, até a referida entrevista, o rótulo no qual eu pensava era "pós-rock/experimental". Rótulos são rótulos, melhor não pensar neles.
Como é o processo de composição e gravação?Concomitante. O disco de estréia foi composto e gravado ao mesmo tempo. As células-base foram loops de estática de rádio, que funcionaram ao mesmo como batidas e texturas nas músicas. Depois, fui inserindo outros samples e alguma guitarra ou sintetizador. As letras eu já tinha, são poemas que estão no livro que eu publiquei,
Ambivalência, e que eu sempre quis usar em músicas. E esse processo todo eu fiz em casa, sozinho, no micro.
Fale sobre o Eu contenho todos os meus anos dentro de mim.Esse CD e o input_output são sinônimos por enquanto. Ele foi gravado/composto em dois meses e mixado em outros dois, completando a estação do outono como tempo de gestação. A partir do primeiro passo, o surgimento de tantas músicas que pudessem se tornar um disco foi rápido. Tanto a minha criação como a minha inércia criativa são compulsivas. Quando sento pra fazer, só paro quando está pronto, ao mesmo tempo em que fico um tempão sem fazer nada depois. Semana passada surgiu uma primeira música pós-debut, um improviso num software novo, com 16 minutos, que coloquei em três partes no site da Trama, para "caber". Bom, o que posso falar ainda sobre disco é que ele teve duas participações: a Mariana Prates, dos Superphones, cantando em "Escombros", e a Manuela Colla, minha noiva, lendo Joseph Campbell em "Joseph Campbell" e sendo minha consultora para todas as dúvidas e necessidades de opiniões - nosso gato Fuzzy foi "assistente de estúdio", ficava no meu colo passando uma energia quando eu estava em frente ao
micro. O selo Open Field/Peligro era a minha única opção de lançamento, que bom que eles aceitaram lançar. E está bem vendido por lá, sempre em terceiro no ranking dos nacionais. O André Gomes está criando um selo e pretende lançar o disco também em Portugal.
Como rolou esse contato? Você esperava haver espaço para um som tão experimental?Arrisquei. Eu sabia que o Guilherme Barrella gosta de coisas avant-garde, dá espaço pra elas, mas nunca se sabe o limite entre o avant-garde e o desagradável, depende de cada ouvinte. E o meu som não é tão experimental, tem muita repetição, tem vocais, tem estrutura, não são músicas longas e não há ausência de melodia. Passa longe de um Merzbow ou de um Six Organs Of Admittance, por exemplo. Mas, como já disse anteriormente, se a Open Field não lançasse, eu iria lançar sozinho, até porque ainda não conhecia as possibilidades das netlabels.
O que seus outros projetos musicais influenciam e onde eles se distanciam do input_output?Influenciam no sentido que foram, além de tudo, escolas de composição e execução. Então a aproximação maior é quando eu toco guitarra no input_output, porque é guitarra que eu toco na
Blanched (rótulo: pós-rock) e na Pelicano (rótulo: guitar band). Distanciamentos: as bandas são coletivas, "orgânicas", disco e show são praticamente idênticos; o input_output é individual, eletroacústico, disco e show são versões diferentes para as mesmas músicas. Além disso, o input_output é mais "difícil", "avant-garde", "autoral".
Música para ser boa tem que incomodar?Não, de forma alguma. Acho que um dos requisitos da arte é provocar algum tipo de estranhamento, por causa de algum elemento novo, mas no momento em que o ouvinte se incomoda, isso quer dizer que ele não gostou da música, a não ser que seja masoquista. Até os sons aparentemente incomodativos, como Wolf Eyes, quando apreciados tornam-se agradáveis. Da mesma forma, músicas aparentemente agradáveis podem incomodar. Belle And Sebastian me incomoda, por exemplo. Voltando ao "estranhamento", há um filósofo da arte que diz que se a arte não é provocativa, se ela apenas satisfaz a expectativa do público médio, deixa de ser arte e se torna outra coisa.
Já mostrou o seu som pra família? O que eles acham?Mostrei. Meus pais foram no lançamento do disco, produzido pelo João Perassolo, da Noisy Produções, quando ele foi tocado em volume muito alto. As reações deles foram melhores do que eu imaginava. Minha mãe relacionou a trilha sonora e disse ser algo "mais artístico" e meu pai disse ser bem variado, apesar de ter feito cara feia para "Aço, asfalto, plástico", que é a mais "radical". Uma curiosidade é que um grupo de uma dez coreanas que foi ao lançamento, durante essa música, saiu da peça onde o disco estava sendo tocado, com os ouvidos tapados. Ao mesmo tempo, para alguns ela é a melhor faixa do disco.
Você vê um paralelo entre seu trabalho e outros projetos nacionais atuais, como Lavajato e Objeto Amarelo?Sim, vejo algum parentesco dos resultados. Mas o input_output trabalha mais com repetições, com espécies de "canções experimentais", com o meio termo entre o experimental e o pop, deixando o ouvinte confuso, como que sendo puxado o tempo todo para um lado e para o outro - enquanto que Lavajato e Objeto Amarelo mexem mais com o aleatório. Sou fã especialmente do Lavajato, os dois discos que foram lançados pela Truma Records são o que há de melhor na música do país, atualmente.
Você se apresenta ao vivo? Como são as apresentações?Ainda não, mas estou ensaiando há alguns meses a versão ao vivo do disco, com guitarra, baixo e bateria, mas em todas as músicas um desses elementos não está presente. Além disso, há vocal, dois sintetizadores, um discman tocando samples, um megafone, um ursinho musical e um aspirador de pó. Há rodízio de instrumentos. Vamos precisar de um palco não muito pequeno. Estamos excitados e ansiosos para estrear o show. Até o próximo outono isso acontece. As músicas estão realmente bem diferentes, apesar de que há sempre um elemento que remeta à composição original do disco: mais uma ocorrência daquela confusão, pra cá e pra lá.