Tem gente em São Paulo que jura de pés juntos que o Acre não existe. E o Acre não existe mesmo. Pelo menos do jeito que muitos imaginam. Rio Branco é sim uma cidade pequena, isolada no meio da floresta, mais próxima da Bolívia do que dos grandes centros brasileiros. Isso não impede, entretanto, que existam por lá pessoas bem informadas e uma crescente cena roqueira.
Nos último oito anos, a capital Rio Branco tem vivido um surto de desenvolvimento patrocinado pelo onipresente governo do estado. O que há menos de uma década era considerado terra de ninguém, tornou-se uma cidade simpática e acolhedora, com bem cuidados parques urbanos, edifícios históricos restaurados e uma população orgulhosa de suas raízes e história.
Prova disso é o nome do festival Varadouro, surpreendente iniciativa que chegou à segunda edição no último fim de semana e motivo pelo qual fomos convidados a visitar a capital acreana. Varadouro era o caminho aberto pelos chamados povos da floresta mata adentro. Foi também o nome de um jornal da imprensa marginal acreana durante a ditadura militar.
A viagem é longa, mas não tanto o quanto se espera. O que mata mesmo é chegar no aeroporto de Brasília às oito da noite de sexta-feira. Tumulto, caos, brigas. Vôos e mais vôos atrasados. Parece que a cidade toda se engalfinhou nas salas de espera dos terminais, vítima de um plano de evacuação malsucedido. Resultado: conseguimos chegar em Rio Branco à meia noite no fuso-horário local, duas horas a menos que o resto do país - imagina só, eles assistem o jornal nacional tomando chá da tarde.
Ao descer do avião, fomos apresentados a dois companheiros presentes em todos os momentos de nossa estadia: o calor e a umidade – fatores que renderam ao festival o carinhoso apelido de Suadouro. Correria, correria, correria e chegamos ao Café Mamão, local onde se realizou o evento, à tempo de pegar meio show do
Coletivo Rádio Cipó, de Belém (PA). A fusão de rock, hip hop, dub e muitos princípios ativos naturais realizada pelo grupo fica ainda melhor quando sobe ao palco Mestre Laurentino, para entoar uma versão porrada de sua “Loirinha Americana”.
De óculos escuros, chapéu na cabeça e exuberantes camisas feitas sob encomenda, Laurentino, 82 anos de juventude, foi a grande figura do festival. Assistia a todos os shows na primeira fila, bebia com a roqueirada 60 anos mais nova e encerrou sua temporada em Rio Branco tocando gaita numa roda em um churrasco, acompanhado por músicos do
MQN (GO) e
Macaco Bong (MT), bandas responsáveis, respectivamente, pelos melhores shows da segunda e da primeira noite do festival.
O cuiabano Macaco Bong surpreendeu com um rock intuitivamente matemático, totalmente instrumental e climático. Soa como se Fugazi e Mogwai fossem um trio de guitarra-baixo-bateria na San Francisco de Arthur Lee e Jimi Hendrix. Showzão, arrancou até corinho da platéia ao final. Seguiu-se a apresentação do
Camundogs. Banda querida na cena local, teve suas canções com uma forte pegada rock nacional dos anos 80 cantadas por boa parte do público. Abriram caminho para o show do
Moptop, que encerrou a primeira noite. Por mais que se tentasse, não dava pra não pensar em Strokes. Não que isso seja um demérito para a banda. Ela faz muito bem o que se propõe.
A noite de sábado começou metal, com as locais Auttreyd, de black metal, e Fire Angel, de heavy melódico. O
Mezatrio (AM) convenceu mostrando influências do rock inglês e Los Hermanos. Álamo Kário, artista radicado no Acre com mais de 20 anos de carreira, chamou atenção pelo inusitado, ao botar um índio de cocar e tudo como baixista.
A noite, entretanto, só começou de verdade com os mineiros do
Porcas Borboletas. “Parece Titãs no começo da carreira”, disse alguém. “Lembra Arrigo”, constatou outro. O fato é que o rock fragmentado com doses generosas de cabecismo MPB da banda caiu nas graças do público que, pela primeira vez, pediu bis.
Já os caras do MQN acreditam tanto nesse lance de rock dos infernos que acabaram virando os melhores nisso. É rock com volume no talo, quase burro, ilicitamente aditivado e naturalmente inflamável. Botaram fogo no festival.
Primeiro produto de exportação da cena acreana de rock independente, o quarteto
Los Porongas foi a grande estrela do Varadouro. Foram saudados como heróis pela platéia que entoou em coro cada sílaba proferida pelo vocalista Diogo e fizeram o show mais intenso do festival. Dava pra ver o quanto os caras estavam emocionados.
Sobrou para o
Walverdes (RS) a ingrata missão de subir ao palco depois dos Porongas e encerrar o festival. O som, que até então tinha segurado bem a onda, começou a pipocar e a banda fez um show apenas legal. O que, para quem conhece a banda ao vivo, não quer dizer muita coisa.
Abrir caminhos, assim como os povos da floresta na Amazônia. No fim das contas, ao promover o intercâmbio de uma cena situada distante dos grandes centros com artistas, produtores e jornalistas de outras regiões, não só absorvendo informação como também se expondo e dando a cara para bater, a segunda edição do festival Varadouro fez exatamente o que seu nome propõe.