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Pancadão divino
por Pedro Bruno

Oriundos da cena hardcore, cariocas do Miami Bros. fazem "funk de Jesus"

24/04/2008
Guitarras distorcidas, máscaras, letras de protesto e um show de abertura do Shaman. Não, não se trata de mais um time de cabeludos transpirando rock de roqueiro: o Miami Bros toca funk. O coletivo carioca, nascido há quase oito anos, carrega o mistério de ser formado por figuras do underground e do rock independente do Rio de Janeiro. Entre os integrantes encontram-se produtores de shows e músicos de hardcore, que encontraram no batidão uma ferramenta mais penetrante para criticar a corrupção e os crimes cometidos por entidades religiosas. Usando pseudônimos, eles propagam o Funk de Jesus e acarretam fãs e detratores por onde passam. Por e-mail, os MCs Djason e Ninja falaram com a TramaVirtual.

Como e quando o Miami Bros. começou?
Djason - Na verdade, começou como um projeto, meio que de brincadeira, lá pelo ano 2000. Primeiro fazendo letras para sacanear uma amiga crente, e depois experimentando softwares de gravação para criar as bases. Mas a coisa engrenou mesmo quando entraram os outros integrantes.

No release da banda está escrito que os integrantes são figuras do underground e do rock independente, alguma pista sobre isso?
D - Eu organizo shows independentes desde 1992, e nos anos de 2002 e 2003 produzi o Freakshow. Edito também fanzines há muito tempo e já fiz parte de algumas bandas. O MC Ninja e o Negro Drama tinham uma banda de hardcore, e o MC Venéreo era baterista de uma banda de hardcore mais pra linha melódica, com quem gravou 3 CDs e já tocou em diversos estados do Brasil.

Apesar delas não influenciarem diretamente no som do Miami, quais seriam as principais influências do grupo e até onde elas influenciam de fato?
D - Na verdade acho que influencia na atitude do grupo. Ouvimos de tudo um pouco, muito hip hop e hardcore. Por exemplo, gostamos muito dos revezamentos dos vocais do Beastie Boys e sem dúvida é uma forte influência pra gente, e também gostamos muito do protesto das bandas de punk/hardcore, o que reflete em nossas letras.

Se as influências citadas na página de vocês misturam o punk e o hardcore com o rap, como surgiu o gosto pelo funk?
Ninja – Nós somos do Rio de Janeiro, né cara, então por mais que você não queira, o funk carioca está presente em nossas vidas.
D – Cara, é impossível ignorar o movimento funk no Rio de Janeiro. Você pode até não gostar, mas me diga o que reúne multidões durante a semana além do futebol? Como já disseram por aí, o movimento funk foi a coisa mais punk que aconteceu nos últimos tempos.

Qual o medo por de traz dos pseudônimos?
N – Não acho que é medo, apenas uma forma de fiéis radicais não quererem pegar a gente de alguma forma. Por outro lado, é uma forma de crítica aos padres e pastores que são mascarados e usam a fé das pessoas para ganhar dinheiro, violentar crianças; e eles são mascarados na cara dura mesmo!

Vocês já sofreram algum tipo de ameaça ou atentado?
N – Acho que única ameaça ou coisa parecida foi num show em que “metaleiros” nos tacaram garrafas de água e fizeram gestos obscenos. E teve uma vez também que uma pessoa me cumprimentou após o show falando que foi legal e tal, mas avisou para não brincar com Deus. Nós não brincamos com Deus! Acho que ele não entendeu bem a mensagem das músicas.
D – Cara, isso é muito engraçado. Fomos escalados pra tocar numa "noite dedicada ao metal" num evento em que a banda que encerraria era o Shaman. Alguns “metaleiros” que não conseguiram entender nossa proposta ficaram indignados em ouvir um riff do Metallica em cima de um batidão, e arremessaram algumas garrafas no palco. Mas aos poucos o poder do grave foi vencendo, as garrafas foram trocadas por aplausos e os coitados foram colocados pra fora do local.

O que seria o funk de Jesus para vocês?
D - Na verdade, muitos usam o nome de Jesus ou de Deus em vão. Criticamos o que acontece de podre nas igrejas, como padres pedófilos, pastores que roubam; e tudo fica "em nome da fé". Funk de Jesus é isso aí: faça o bem ao próximo, que estará colaborando para um mundo melhor, independente de ter alguma religião ou freqüentar algum templo religioso.
MC Ninja – O funk que veio pra salvar!

Então o funk pode ser a salvação?
D - O funk, assim como qualquer outro estilo, é uma ferramenta, um caminho para se expressar, dizer o que você pensa. O estilo tem uma boa penetração, mas também sofre muito preconceito. Estamos trilhando por um caminho que ainda é mais difícil, juntando dois estilos completamente opostos e criticando abertamente o que acontece sempre e todo mundo tenta esconder.

A banda começou como uma dupla, quando surgiu a idéia ou necessidade de aumentar o time?
D - A dupla, no caso, era eu e eu mesmo (com o pseudônimo de MC Donald). A necessidade de aumentar o time veio com a repercussão das primeiras composições, que superaram em muito as expectativas, daí resolvi fazer uma coisa mais bem elaborada e produzida.

Como funciona o processo de composição das músicas?
D - Sempre buscamos inspiração em tudo o que a gente ouve e tentamos colocar no funk. Buscamos muita inspiração também no miami bass. As bases novas são praticamente feitas pelos produtores da Beatbass High Tech.

E as letras? De onde vem a inspiração para as mensagens?
N – De onde? Olha ao seu redor, várias igrejas de tudo quanto é jeito. Várias pessoas usando a fé para o seu próprio bem. Te chamam de irmão, mas na prática não é isso que acontece. Pregam maravilhas dentro da igreja, mas dentro da própria casa se vê outra coisa. Padres pedófilos, pastores nadando em dinheiro.
D - No início eu escrevia quase tudo, depois, com a entrada do MC Venéreo e o MC Ninja, temos criado as letras em parceria.

Vocês disponibilizaram diversos singles na TramaVirtual, como foi o processo de produção dessas faixas?
D - Na verdade, as músicas agora estão até bem mais produzidas do que as que estão lá, e quase tudo a gente produz em homestudios mesmo. Mas temos faixas gravadas em estúdio profissional (o mesmo que gravou Strike e Glória) que foram destinadas a trilha de filme (Libertinos Séc. XXI - Explícita/XPlastic) e coletânea (Neo Funk - Som Livre).

Planos para um disco?
D - Sim, temos plano pra lançar um CD nosso e inclusive estamos trabalhando na pré-produção dele. Já até recebemos convites de alguns selos independentes, mas ainda não tem nada certo.

Vocês já fizeram shows? Por onde o Miami já passou?
D - Já tocamos com bandas como Shaman, Rogério Skylab, Strike, Dibob, mas tocamos mais mesmo em shows do circuito hardcore independente. Tocamos em diversas cidades do Rio de Janeiro e fora do estado, em Juiz de Fora, mas queremos levar nosso som pra outros estados também.

Como funcionam as performances?
N – Funcionam no automático. Não combinamos nada, não ensaiamos passinhos e tal. É chegar no palco e mandar ver. Na hora “nego” incorpora a parada.
D -Não tem como descrever. Só sei que é bem dinâmico. Só vendo um show mesmo.

Vocês usam máscaras, certo? Como é encarar o público sem colocar a cara pra bater?
D - Kiss e Brujeria não mostram a cara e isso não significa que são covardes. Imagina um grupo subir num palco num evento de rock e tocar funk pra mais de 1.000 “metaleiros”. Precisa estar sem máscara? Será que algum grupo de Black Metal (aqueles com pinturas no rosto e tudo) teria a moral de tocar num baile funk? Como já disseram por aí, nós somos o Slipknot do funk!

Alguém já perdeu ou teve a máscara arrancada nos shows?
D - Não. Pelo contrário, já apareceram durante o show, no palco, mais pessoas com máscaras.

Alguma novidade para 2008? Algum show na agenda?
D - Temos o lançamento do clip de "Dança do Crucificado" e a gravação de nosso CD. O importante é a gente estar sempre presente de alguma forma, seja como no Tim Festival com a Juliette Lewis usando nossa camisa no show, seja num filme pornô com um atriz usando nossa camisa e com músicas nossas na trilha, ou seja tocando por aí e levando nossa crítica ao maior número de pessoas possíveis, e a internet tem sido uma ótima ferramenta na divulgação das bandas independentes.



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Comentário

25/04/2008
João Rodrigo Xavier / INFOCARDIO@YAHOO.COM.BR
aleluia!
o funk de jesus tem poder! acreditem, as faixas ainda inéditas são mais sinistras que as que já estão por aqui. aguardem...


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