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No berço da revolução?
por Claudio Szynkier

Fernando Coelho, do Seychelles, conta detalhes sobre novo disco, Nananenen, e revela: "é um disco irritado com o atual estado do rock nacional"

15/07/2008
Se uma banda que interessa é aquela que se arrisca, então saiba que ao se deparar com Nananenen, novo disco do Seychelles, você deverá ter a confirmação do combo paulistano na condição de banda interessante.

Colocado isso, gostando ou não dos arriscados caminhos escolhidos, é fácil se sentir atraído por tais caminhos_ que às vezes podem passar por uma leitura pop modernizada e quase experimental do Clube da Esquina, da Vanguarda Paulista e do samba (escute "Poder Para o Povo", "Sanguessuga"), outras vezes resvalar em exageros líricos.

O que importa, além do risco, é que o Seychelles tem construído uma personalidade sonora significativa desde seu debute em "Ninfa do Asfalto" (2005), sobre o qual já falamos aqui. Uma personalidade que fez a carreira underground da banda decolar e trouxe ao barco fãs como o guitarrista Edgard Scandurra_ que hoje tem um projeto paralelo com o vocalista Gustavo Garde.

Nananenen foi lançado virtual e gratuitamente pelo site/selo Mondo77 e é essa iniciativa de gestão, que passa também por deliciosos passos como lançar o show de estréia no CCSP via You Tube (clique aqui), um dos temas da entrevista que o guitarrista Fernando Coelho concedeu à TramaVirtual.

O cenário com o qual a banda convive, ou não ("Nananenen é um disco um pouco irritado com o atual estado do rock nacional de massa"), bem como favoritas de Coelho no álbum, amadurecimento e processso de realização (com detalhes bastante elucidativos) também são assuntos encontrados nessas linhas.

Confira:

O que Nananenen efetivamente representa para a carreira da banda?
É gostoso saber que um segundo disco transforma a coisa em "carreira" pra vocês. Por sorte, contamos com amigos que piram em gravação, se dedicam a isso. Então, ao longo de todo ano de 2007 o Seychelles foi transformando as gravações de suas músicas em disco. Não somos mega-hypes pra pensar no que o disco representa pros outros. Para mim, o repertório do disco como um todo é muito abrangente e representa tudo que sonhamos para ele.

O cenário, tanto do ponto de vista do mercado quanto do público, parece mais instigante, estimulante, receptivo desde o primeiro disco de vocês até este?
O cenário também anda mais competitivo e sem critérios. É tanta oferta que a "peneira do tempo" tem dificuldade de filtrar o que realmente é significativo hoje em dia. Existe o público emergente de artistas independentes e alternativos. Mas ser artista no Brasil é um tanto complicado. Você sabe como vender CD independente em distribuição nacional sem burocracias? Ainda estamos amarrados ao finalzinho da era das gravadoras.

Ainda está se aperfeiçoando o método de juntar o mercado informal ao mercado mais careta, com nota fiscal e imposto. Ser independente não é só disponibilizar seus sons de graça na internet, é cuidar de um puta trampo, de todos os seus estágios, do início ao fim.

Como rolaram os processos de composição? Gustavo e você compõem mais que os outros?
Sim, geralmente trago minhas músicas com espaços abertos para a banda terminar, como um espaço de bateria ou uma melodia sem letra mais extensa. Já as músicas do Gustavo costumam chegar no ensaio mais encaminhadas, por ele ter mais facilidade na construção de letras. O meu forte é criar conceitos e pedir ajuda aos parceiros.

O que esse disco diz?
O Nananenen fala sobre as doenças e curas dentro da vida humana. Injustiças, preconceitos, a espiritualidade do ser humano e algumas viagens mais lúdicas e semipolítizadas. Não é exatamente um disco engajado, mas é um disco um pouco irritado com o atual estado do rock nacional de massa.

Vocês acham que falam para quem exatamente? Pergunto isso pois sinto muitos focos e atmosferas pop diferentes ao longo da audição.
Falamos, principalmente, para nossa própria consciência. Nunca ganhamos muita grana com isso. Então, o que pega mesmo é a nossa nescessidade constante de tocar o que é nosso. Quando compomos uma música, acabamos vendo qual é o potencial estético dela e trabalhamos o melhor possível para não ter que repetir a receita na composição seguinte. As músicas do Nananenen são como sementes de plantas diferentes. Podemos futuramente escolher uma linha genealógica do "Nana" e explorar melhor cada fruto desta árvore.

No momento, preferimos partir por um caminho mais pluralista e diversificado. No fim, tudo fica com cara de Seychelles (seja isso bom ou ruim). Mas não queremos afunilar muito nosso som por enquanto.

Por que Nananenen?
Nananenen é um nome gráfico, como um desenho, uma poesia concreta, que nos abre caminhos para diferentes interpretações. Gostamos de deixar algo em aberto para a galera refletir conosco.

Por que lançá-lo virtualmente?
Meu "departamento de marketing" falou que era pra ter controle total sobre a obra. Acredito que daqui pra frente, quanto mais direto o contato do fã com o artista, melhor para o público e para o próprio artista. A vivência aumenta, o laço aperta e o músico tem a chance de viver com menos atravessadores (que são indispensáveis em alguns momentos).

Vai rolar versão física?
Sim! CD em Digipack. Acreditamos em todas as mídias. E o digital pode se transformar em tudo. A Master é nossa.

Como será o show?
O show tem evoluido como sempre em duas direções opostas: o Underground em contraposição ao Rococó. A execução completa do Nananenen ao vivo precisa de uma infraestrutura maior para ser realizada. No último dia 5 de julho, fizemos o lançamento virtual do disco no Centro Cultural São Paulo e ficamos sabendo que esse show inteiro já está disponível no You Tube. Pode passar o link? É melhor assistir do que eu ficar aqui tentando explicar - http://br.youtube.com/view_play_list?p=093232C636E73560

Essa 'cena' de vocês se divide em vários projetos, como Mamma Cadela, Seychelles e Ancestral. Quais seriam as diferenças básicas de objetivo e de conceito entre cada um deles?
O Mamma Cadela foi inicialmente um projeto meu com o Ismael e com o Vanilson Rodriguez, que foi tomando forma e, sem compromisso, acabou virando um quinteto muito desencanado. Já o Ancestral é o terceiro disco solo do Gustavo. Esse ano montamos uma banda para tocar o repertório desse disco ao vivo também. Na nossa página do Seychelles na Trama tem os outros 2 discos dele disponíveis: "A Carruagem" e "Sangralove".

O Seychelles é o irmão mais velho de todos esses trabalhos. É como se fosse o primeiro filho que fugiu de casa e mostrou aos irmãos que era possível existir como artista. O Gustavo mantém também um projeto de covers de bandas mods com o Edgard Scandurra, chamado Os "Bons Mods", e em breve está lançando um outro projeto, em parceria coma cantora Monique Maion, chamado "Sunset".

Vocês têm tantas bandas juntos pela amizade básica e puramente?
Posso te falar que nossa aproximação foi puramente artística. Eu era amigo do Vanilson (baixista do Mamma Cadela) antes de tudo. O Gustavo e o Renato (vocal e baixista do Seychelles, respectivamente) se conheceram na faculdade através da música. Mas eu os conheci jogando futebol com uma galera de jornalistas. O pessoal do Mamma e do Ancestral foram todos convidados pelas qualidades musicais e não por amizade. Acabamos virando amigos tocando.

Quais foram os momentos mais gratificantes na feitura/ realização do Nana?
Foi ver crescer as nossas qualidades como "músicos de estúdio". Desde o nosso primeiro EP, em 2003, somos a mesma equipe de produção. Aprendemos juntos, na raça, fazendo. E esse último disco mostra nossa evolução. Traz um som ainda melhor. Vamos melhorando a cada gravação. Junto dessa empreitada está o Fabio Pinczowski (tecladista do Mamma Cadela), que participa de tudo. Ele, como nosso produtor, sempre traz a voz da razão e um olhar de fora, tão necessários para o nosso processo.

Quais seriam as duas favoritas de vocês do disco?
São muitos caminhos diferentes explorados no disco para escolher duas, mas, no meu modo de ver, "Poperô" e "Scaramu" trabalham sons híbridos de bateria e baixo. Elas são antagônicas dentro de si mesmas. Foram duas múiscas que ouvimos na pré produção e ficamos com "medo" de gravar. Foram das que deram mais trabalho para escolher timbres e mixar.



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