A terceira iniciativa que tentaremos entender dentro da série de matérias sobre agências e produtoras é a
Tronco. Fazem parte da produtora velhos e novos conhecidos da cena independente. Entre os velhos, Sergio Ugeda, (ex-
Vurla,
Debate, Diagonal e fundador do selo Amplitude). Os novos, são Gabriela Munin e o Holger Bernardo Rolla.
Dois mil e oito foi um grande ano para a Tronco.
Holger,
Homiepie e
Stephanie Toth despontaram como grandes promessas da música. Além disso, turnês pelo interior de São Paulo (como a de
Macaco Bong e
The Name) colocaram em prática algumas crenças e sonhos de seus idealizadores.
Sua base é uma bela casa ao lado do Parque do Ibirapuera, a mesma que abriga a Sala 222, estúdio onde as bandas da Tronco costumam gravar e onde, em outubro passado, um gordinho careca chamado Dan Deacon deu as caras para um show privê. Bom relacionamento internacional é outra das frentes da empresa. Algumas de suas bandas estão confirmadas para o South by Southwest, que ocorre em Austin, Texas, daqui a algumas semanas.
Outra marca é a vocação agregadora. Nos últimos meses e anos a Tronco formalizou uma espécie de família, reunindo membros das bandas e da produtora, algo que eles chamam de Le Agressif Crew. O nome veio à tona quando fotos do coletivo foram divulgadas como material promocional de um evento que levou grande parte do cast a um salão de festas velha-guarda da Lapa para um festival. A produtora gosta de colonizar locais inusitados e o próximo evento é o Park Life 2, que ocorre nos dias 14 e 15 no Parque do Carmo, em Itaquera..
Confira entrevista.
O que faz sua agência/ produtora?Basicamente agendamos turnês de bandas nacionais e internacionais no circuito do estado de São Paulo, agenciamos algumas bandas fixas, fazemos consultoria e management.
Por quê?Uma banda só se torna uma banda de verdade colocando o pé na estrada, suando a camisa e fazendo shows. Ainda mais com a queda da venda de discos nas lojas, o único meio de você promover seu trabalho é indo até as pessoas.
Quando surgiu?A Tronco Produções nasceu em Novembro de 2007.
Como?O Sérgio Ugeda fundou a Amplitude em 2004. No começo de 2007 eu (Gabriela Munin) me juntei a ele pra ajudar a tocar a gravadora, marcando alguns shows. Quando percebemos que essa era a única saída para a música, resolvemos criar a Tronco, uma empresa voltada somente à produção de shows, que hoje conta também com Eduardo Ramos e Bernardo Rolla.
Onde fica?Nosso escritório fica em São Paulo, pertinho do Parque Ibirapuera.
Principais influências.Música que gera discussão (desde que bem-humorada) e livros em geral.
Our Band Could Be Your Life do Micheal Azerrad e
Tour: Smart and Break the Band do Martin Atkins são dois títulos que dão o tom da nossa ideologia.
Que bandas trabalham com você?As bandas fixas em nosso cast são:
Black Drawing Chalks, Debate,
Gigante Animal,
Hierofante Púrpura, Holger, Homiepie,
Lulina, Macaco Bong, Music Settlement,
Satanique Samba Trio, Stephanie Toth, The Name e
Tony da Gatorra.
Por quê?Porque, antes de mais nada, são bandas que realmente gostamos. Seus integrantes são pessoas que chamamos de amigos e é um prazer fazer as coisas para eles. A partir de junho teremos novas bandas incluídas em nosso cast..
Planos para o futuro. E para o breve.Pretendemos continuar fazendo as turnês, explorando outras cidades, crescendo, ramificando e expandir nosso circuito por todo o Brasil.
O que aconteceu de mais legal até agora?Uma das coisas mais legais que nos aconteceu foi a consolidação do projeto Desbravando o Interior. Hoje temos um público fiel em cada cidade do interior, que sempre vai nos shows, compra o material das bandas e nos escreve perguntando quando vai rolar a próxima turnê. Isso é impagável.
O que você acha do cenário brasileiro de música independente em 2009?Achamos que é real.
O Brasil, como cenário macro, não inspira grandes sonhos, pois sua natureza institucional (que é cartorial, antipática a estratégias culturais e artísticas não massificantes) sempre barrou a liberdade; no caso, liberdade em releção a modelos de poder e favorecimento. é possível ver daqui a 10 anos algo realmente interessante, um mercado "independente" realmente bom, dignamente rentável e, principalmente, não contaminado por essa natureza?Trabalhamos com esta expectativa e determinação para participar, de acordo com o panorama pessimista que você colocou, de uma transformação positiva no ponto exclusivo dos shows. Nada eliminará, usando suas próprias palavras, a natureza industrial apenas voltada para o lucro estéril. Nada eliminará executivos, muito menos mudará a ordem institucional. Ela continuará existindo. Não contamos com esta possibilidade romântica. A natureza institucional barra empreendimentos e isto é algo que atrapalha a economia brasileira de maneira assustadora. O mercado independente é uma economia e, por isso, sofre deste problema de maneira absurda. O mercado independente no Brasil é muito novo, ou seja existem muitos problemas, mas em uma alusão a Kubischeck, andamos 50 anos em 5, sem a menor dúvida. Se o Brasil seguir os passos do que acontece fora, logo surgirá uma subdivisão do mercado dito independente, que hoje em dia nos EUA é um mercado de milhões. E isso não vai demorar muito para acontecer isso (vide explosão de festivais e interesses de marcas em patrocinar ações ligadas ao mercado independente). Sabemos que depende apenas das pessoas - bandas, público e colaboradores em selos e outros - para finalmente atribuir sentido ao significado de tocar sua própria música em diferentes cidades na frente das pessoas e buscar as condições certas e necessárias para que as turnês aconteçam.
E por quê?Porque, caso contrário, nada acontece. Sabemos como é. Uma banda grava um disco e não faz nada com ele como produto ou com suas músicas como expressão e patrimônio central de sua existência.
O que seria independência nesse meio, e nesse momento histórico?Pagar as contas com o dinheiro gerado pela sua música. O sonho de muita, muita gente por aí, temos certeza.