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Bem além dos fados...
por Claudio Szynkier

Conheça as melodias especiais de Nuno Prata, talento jovem de Portugal; baixe canções e leia entrevista

15/07/2009
Aposto que você nunca ouviu falar de Nuno Prata. Pudera, ele mora na cidade do Porto, cidade de grandes vinhos, ótimo futebol, e também de ótima música, pouco penetrante, porém, nas redes brasileiras. Injusto. Nuno participou de uma banda relativamente famosa por aqueles lados, o Ornatos Violeta. Hoje mantém uma carreira solo da qual se destacam as canções do disco Todos os Dias Fossem Estes/Outros, que o compositor influenciado por Chico Buarque, Kassin + 2 e outros inovadores brazucas, contemporâneos ou seminais, lançou em 2006. Disco de belos momentos, antecessor de Deve Haver, que Prata espera lançar no ano que vem. Se Portugal indiretamente, à base de violência contra os negros e escravismo, estimulou o nascimento de um legado de musicalidade brasileira, Nuno vem buscar no Brasil e em seus sons a matriz para suas músicas maduras, melodiosas, de refrões e letras de boa observação humana que revelam, em momentos, uma espécie de José Gonzáles mais colorido e acalorado, ou um Marcelo Camelo ainda mais marítimo.

Fizemos uma entrevista com Nuno, que gentilmente nos atendeu e contou, entre outras coisas, como conheceu nosso site e por que acha que nunca viria tocar no Brasil... Veja e baixe suas músicas no perfil. E aproveite a brisa que é seu sotaque escrito, raro por estas terras


Como você conheceu a TramaVirtual?
Através da Trama cheguei na TramaVirtual. Já não me lembro bem onde encontrei a primeira referência à Trama — talvez em Jogos de Armar, de Tom Zé.

Onde você mora em Portugal?
Nasci e vivo no Porto.

Como você divulga sua música aí em Portugal?
Criei um blogue (todososdiasfossemestesoutros.blogspot.com) para relatar todas as peripécias relacionadas com a edição do meu primeiro disco a solo, no qual era possível escutar algumas faixas; inscrevi-me também no MySpace. Todos os Dias Fossem Estes/Outros está agora disponível para download na totalidade no sítio da TramaVirtual e vou começar um outro blogue (nunoprata.blogspot.com) para acompanhar o trabalho de Deve Haver, disco que pretendo editar em 2010.

Como encaram sua música aí em seu país?
Fui baixista de uma banda chamada Ornatos Violeta entre 1991 e 2002. Editámos Cão! em 1997, pela Polygram, e O Monstro Precisa de Amigos em 1999, pela Universal. Este último chegou a disco de prata, passou bastante na rádio e permitiu que em 2000 fizéssemos uma grande digressão pelo país; em Maio de 2009 foi considerado pelos ouvintes da Antena 3, uma rádio nacional focada na nova música portuguesa, como o melhor disco português dos últimos quinze anos.

Apesar disso quando decidi fazer um disco a solo tive grandes dificuldades em editá-lo; ninguém se mostrou particularmente interessado em fazê-lo. Acabei por conseguir gravar o disco graças a uns amigos que tinham constituído uma editora para lançar a banda sonora de uma peça de teatro. O disco saiu em 2006, foi mal promovido e não fiz muitos concertos. Na rádio, passou sobretudo na Antena 3 e em rádios universitárias. Tenho alguns (poucos) seguidores indefetíveis e o reconhecimento de alguns colegas do meio musical.

Como estão as coisas aí em termos de artistas independentes?
Tenho a ideia de que a cena independente portuguesa é e sempre foi uma coisa um pouco caseira. Grava-se, edita-se, toca-se, sempre com grande vontade mas com poucas condições. No entanto, as dificuldades muitas vezes fazem com que os trabalhos tenham uma estética muito própria e uma personalidade bastante vincada.

Neste momento tudo o que está ligado às editoras independentes Catadupa!, FlorCaveira e Amor Fúria me parece bastante relevante.

Você tem alguns singles no nosso site, mas já tem discos gravados? Como eles foram distribuídos?
A solo gravei Todos os Dias Fossem Estes/Outros, editado em 2006 pela Turbina, que colocou o disco à venda directamente na Fnac e na CD Go (uma loja nacional), e em uma ou outra loja de produtos de autor (que não musicais; o disco não tem uma capa estandardizada, concebi uma embalagem em cartão que permite, ao rodar o CD, que o disco tenha dois títulos). Um terço das vendas foi feito nos concertos.

Você faz shows por aí, como são?
Já não faço shows vai para um ano. Desanimei bastante com a pouca recetividade ao disco e decidi fazer uma pausa para concluir a minha licenciatura em escultura, de que tinha desistido em favor da música. A minha filha nasceu quando acabei o curso (vai fazer um ano) e tenho sido pai quase em full-time; venho agora trabalhando num novo disco.
As músicas do disco foram arranjadas, tocadas e gravadas por mim e pelo Nico Tricot, um músico francês meu amigo que vive no Porto; para tocá-las ao vivo, juntou-se a nós um outro músico, António Serginho. Toco sobretudo em bares, cafés-concerto e pequenos auditórios; toco também em locais improvisados — livraria, café, papelaria, salão. Como nem sempre se reúnem todas as condições para tocar em trio, toco também em duo ou a solo; ou então fazendo aquilo que chamo de concerto económico — caixotes de cartão em vez de bateria, melódica em vez de teclado. (Pesquisando no YouTube vão encontrar alguns exemplos de shows.)

De que informações musicais você se alimenta para conceber sua estética?
Foi por causa dos americanos Violent Femmes que quis ter uma banda e comecei a tocar. Continuo a adorar todos os seus discos. (Tive a sorte de me cruzar com eles: com os Ornatos Violeta abri vários concertos deles aqui em Portugal e Gordon Gano cantou — em português! — numa música no nosso segundo disco.)

Gosto muito de canções, qualquer que seja o estilo; gosto muito de ouvir cantar em português e as letras interessam-me particularmente. Sérgio Godinho é para mim a maior referência entre os escritores de canções portugueses; Caetano Veloso e Chico Buarque, entre os brasileiros.
Discos como Público de Adriana Calcanhotto, Music Typewriter de Moreno+2, e Ventura de Los Hermanos foram discos-chave para conhecer melhor a música brasileira, que não os clássicos. (Curiosamente, este último foi-me oferecido por um músico amigo dizendo que lhe fazia lembrar Ornatos.)
Mathieu Boogaerts é um autor francês de que também gosto muito.

Usa bastante a rede como pesquisa de novos sons?
Confesso que não sou muito curioso. Vou ouvindo quem me adiciona como amigo no MySpace e tenho prestado mais atenção nos destaques da TramaVirtual.

Pretende vir pro Brasil?
Adorava ir aí tocar, mas me parece bastante improvável. Estou longe de ter capacidade para investir numa ida promocional ao Brasil; Portugal tem dificuldade (e falta de vontade) em exportar outra música que não fado.
Um dia, quem sabe.



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