Traçando um paralelo com o título do álbum de estreia do
Montage,
I Trust My Dealer, não é só em seu traficante que
Daniel Peixoto confia. Ele também confia nele mesmo. Prova disso é o lançamento de sua carreira solo, que significa uma pausa – ainda sem data para voltar – nas atividades do Montage e uma total dedicação às composições próprias, que, como ele diz, são mais livres, mais pop e dão espaço para o regionalismo que sempre foi deixado de lado pelo duo.
Ele saiu de Crato, interior do Ceará, e se tornou símbolo do electro-rock nacional. Com personalidade forte e visual andrógino, Daniel conquistou inúmeros fãs, desde os mais inseridos nas noites do submundo das grandes cidades, em clubes onde reina o electro-rock, até moradores de lugares remotos que conheceram o Montage através de festivais e da internet, plataforma da qual a banda abusou exemplarmente nos últimos anos.
Agora sua caminhada só depende dele e aqui ele fala mais sobre seu projeto.
Conte para nós. Qual é a do seu projeto solo?Cara, eu estou fazendo várias coisas diferentes na minha vida e isso tem se refletido nesse projeto solo. Eu amo música, amo me comunicar tão bem através dela e estou me dedicando cada vez mais a melhorar como músico. Seja fazendo aulas de canto e fonaudiologia, estudando instrumentos, e principalmente no contato com músicos tão maravilhosos que eu tenho me envolvido nos quatro cantos do país. No fim, esse lance de agora está só, tem muito a ver com a minha personalidade e o fato de eu ter a necessidade de mudar tudo bruscamente, de uma hora pra outra!
Fale um pouco sobre as músicas novas. Agora que há mais liberdade, quais influências suas composições devem receber? Estou adorando poder trabalhar sonoridades, digamos tropicais. Com o Montage o lance sempre foi muito universal, estávamos com a cabeça muito mais na Europa do que no Crato, que é a cidade do interior do Ceará de onde eu venho. Não que eu vá mudar o meu estilo, mas hoje, me vejo muito mais livre e maduro para incluir sonoridades brasileiras que não apenas o funk carioca ao meu trabalho. Ser regional sem ser caricata! Isso é muito massa. Mas, sobretudo, eu estou trabalhando um conceito mais pop e sempre dentro da eletrônica.
Quais os planos? Vem aí um disco? Sim, esse disco já está sendo finalizado e ele deve sair em janeiro. Tenho 70% do material pronto e estou finalizando o restante.
Quem é essa turma de produtores com quem você tem trabalhado? Porra, muita gente foda, estou muito orgulhoso de poder contar com alguns de meus amigos para esse trabalho. Já existem faixas prontas com Bloodshake, Killer on the dancefloor, George M, David Brasileiro (The Dancer), E ainda tem por vir Database, Luca Lauri (No Porn), o rapper Xis... Será que to esquecendo alguém? (risos).
O Montage tem uma base de fãs respeitável. Para quem é esse novo projeto? A idéia é expandir o público? Sim. Por isso fiz questão de trabalhar com tantas pessoas diferentes, para poder pegar a energia dessas pessoas, que circulam todas, tão bem, no novo universo que eu quero construir. Algo dançante, intenso e verdadeiro. Os fãs do montage são muito fieis, continuam me seguindo e pedem loucamente, quase que diariamente por músicas novas, shows em determinadas cidades, essas coisas. Com esse projeto novo pretendo tê-los ainda comigo, junto de uma nova leva que eu sei que está por vir.
Você se sente realizado com o Montage e acredita que chegou no limite (como banda e dentro dos possíveis caminhos do electro)? Há planos para voltar ou seu pensamento agora está totalmente voltado para o projeto solo? Muitíssimo realizado. O Montage foi uma das coisas mais lindas e verdadeiras que já aconteceu comigo. Serei eternamente grato ao Leco e ao Ricardo por terem me permitido ir tão longe. Eles realmente acreditaram em mim, mas agora, nesse momento a resposta é não! Eu costumo dizer sempre que o Montage não acabou, e de fato não acabou. Não nos juntamos e dissemos, "olha, acabou". Nem rolou isso. Só as coisas foram tomando rumos naturalíssimos e o que eu estou fazendo agora é somente a continuação do meu trabalho na banda, mas agora sozinho. Não vi mais sentido em trabalhar o nome de um projeto se eu tenho meu próprio nome. Mas, ainda sempre peço uma referência ao Montage em todo meu material de divulgação, para que as pessoas entendam e vão se adaptando a esse trampo que mudou.
Como é o seu show solo? E como rolou a turnê internacional? Estou priorizando agora meu álbum e só estou fazendo shows que realmente tenham uma importância maior, para não me desconcentrar. Estou paranóico com esse disco. Mudei vários hábitos para que ele pudesse sair melhor, e tenho sido fiel a esse compromisso. Com meu projeto solo me apresentei num super show em Belém no Pará, que é uma cidade importante pra mim pelo número de fãs que eu tenho lá, e eu fui além de fazer essa apresentação ao vivo, gravar um clipe. Depois rolou o festival Ceará Music, que é hoje um dos maiores do Brasil e vou fazer a turnê do The Prodigy, abrindo os shows. Em seguida viajo rapidinho para essa turnezinha gringa que será bem rápida. Ela aconteceu através de contatos que eu já tinha com o Montage, fizemos essa mesma rota ano passado, a que eu vou seguir agora. O show é todo do repertório novo, e eu canto duas ou três músicas do Montage. Já circulam vídeos na internet e a galera pega as letras muito facilmente. É positivamente estranho ver que as pessoas cantam uma música que ainda nem foi lançada.
O que o levou a ter uma identificação tão forte com o público, a ponto de Daniel Peixoto e Montage serem marcas com praticamente o mesmo peso, ainda que inseparáveis? O que o torna uma entidade no underground nacional? Eu penso muito sobre isso e a resposta é muito clara: Eu sempre fui muito próximo de meu público e eles me conhecem muito bem. Sempre tive total abertura para que eles pudessem estar ao meu lado, mesmo que não fisicamente. Abri minha vida, me mostrei transparente e dei a cara a bater... Sobre a entidade, eu vejo isso aliado a minha competência. Rodei com minha banda todos os estados do Brasil, toquei para 500 mil pessoas de uma só vez e fiz exatamente o mesmo show, dias depois, para 30, em vários inferninhos por ai. Sempre dei minhas músicas gratuitamente. Fui a outros países, fui preso na Inglaterra, só porque eu queria mostrar meu trabalho por lá. Toquei muito de graça somente para apresentar meu trabalho às pessoas que eu gostaria que me vissem ao vivo, passei fome inicialmente em São Paulo, paciente e muito certo que tudo seria muito bom no final.. E está sendo.
Como foi sua prisão na Inglaterra?Gente, essa pergunta é tão 2007, já respondi tanto. Acho melhor você perguntar como vai ser lá, no próximo dia 6 de novembro, quando me apresento dessa vez com visto de trabalho.