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Segredos da cidade
por Enrico Vacaro

Após longa espera, Numismata lança segundo álbum e apresenta novo vocalista

13/11/2009
A história de Chorume, recém-lançado disco do Numismata, o coloca no hall de obras que quase viraram lenda. Isso porque vasculhando no baú do tempo da TramaVirtual, encontramos uma matéria sobre as gravações do disco em questão, datada em 2006 – leia aqui. Três anos depois, finalmente Chorume é lançado - baixe aqui -, revelando algumas coisas: o impacto da cidade no cotidiano, ecleticidade do ex-quinteto, agora sexteto, e avanços em termos de maturidade (o que em síntese significa consciência maior ao agrupar elementos).

Quando seu antecessor, Brazilians On The Moon, foi lançado, a banda ocupou um segmento naquele momento pouco ocupado, que era o do samba-rock indie. Agora, o Numismata aumenta a gama de referências e dá uma roupagem moderna a marchinhas, sambas e choros, ainda que cedendo espaço a guitarras distorcidas e o pop com sintetizadores, como na bela “O Inferno e Um Pouco Mais”. Chorume, o substantivo, refere-se ao líquido que escorre do lixo, o que retrata, para além do flerte com o lirismo urbano que caracteriza a banda, aproximação com uma acidez temática inspirada, também, por São Paulo. Chorume (o disco) pode ser visto, nesse sentido, também como retomada desse choque (lirismo X acidez) que, tradicionalmente, faz parte da paisagem artística da cidade.

Os seis anos que se passaram entre os dois lançamentos foram tempo suficiente para que a banda admitisse Russo - que não chegou a participar do disco, mas agora divide os vocais com Piero - e transitasse exaustivamente por casas de shows paulistanas.

Depois de contarem com Jards Macalé no primeiro disco – regravou “Mal Secreto” –, quem aparece em Chorume é Luiz Melodia, em “Prejuízo”, uma das mais “roqueiras” do álbum, colaboração que é mais um número para a série de participações célebres que o grupo agrega. Chorume ainda conta com a participação de músicos de bandas como Ludov e Cérebro Eletrônico, que assim como o Numismata, circulam no meio "Studio SP".

Confira a entrevista com Adalberto Rabelo, guitarrista da banda.



Chorume é mais universal do que o primeiro disco, que era mais preso ao samba. Como foi o processo de abrir o leque de influências?
Eu peço a licença de discordar um pouco dessa afirmação, porque não acho que o Brazilians on the Moon seja menos universal por causa da influência do samba. A bossa nova, por exemplo, que também tem influência do samba, é um gênero universal. Nossas músicas, nesse sentido, falam menos de São Paulo do que a bossa nova menciona o Rio de Janeiro. Além disso, o samba continua por aí com o Chorume. É só ouvir "O Inferno e um Pouco Mais" ou "Anhanguera". Assim como o pop e o rock estão lá desde o Brazilians..., "Paciência" e "Casa Vazia" podem atestar.

Acho que, como todos nós somos caras que gostamos de tudo o que é tipo de música, é natural que isso vá, com o tempo e a intimidade, transparecendo cada vez mais na banda. Se a gente acha normal escutar músicas de diferentes estilos, aleatoriamente, num mp3 player, não tem muito o que estranhar na combinação desses elementos numa canção. Vai rolando.

Só pra ilustrar o que eu disse: quando eu o André nos conhecemos, mil anos atrás, eu trabalhava na mesma loja de CDs onde trabalhava o Max, guitarrista e vocalista da banda que eles tinham na época, o Mother Superior (Bernardo Pacheco, do Elma, também era dessa banda e hoje acompanha o Numismata, como técnico de som), e eu lembro que a gente cansou de trocar ideia a respeito de tudo que estava ali nas prateleiras: Smashing Pumpkins, Weezer, Stevie Wonder, Glenn Branca, John Cage, Guilherme de Brito, Chico Buarque, sei lá. Era divertido demais trabalhar naquela loja. O Carlones, então, lembro que a gente já viajou muito ouvindo Social Distortion e Tom Jobim. Principalmente o Wave, que tem aquela faixa, "Captain Bacardi", que a gente curte muito. Na mesma viagem. Normal, porque música é uma coisa ecumênica, gregária, de natureza não sectária, tudo faz parte de uma mesma viagem, com o perdão do piada fraca. Piero, Felipe, Russo... eles gostam de tudo que você puder imaginar. Falcão, o primeiro baterista, cofundador do Numismata, por outro lado, não era lá o maior fã de música brasileira quando a gente formou a banda, então acho que ele não pensava que a gente era tão samba assim (risos). E a contribuição dele, como não podia deixar de ser, era legal pra caralho, também.

Resumindo, acho que essa diversidade do nosso som é latente, sempre existiu. Muitas das músicas presentes no Chorume a gente tocou na estreia da Brazilians... no MAM, inclusive "Prejuízo". "Enredo" mesmo (ver Música de Bolso Vol. 59), a gente tocou no MAM também e só vai rolar no próximo disco!

Como vocês lidaram com as referências à cidade, presentes nas letras e na arte, e com o conceito do Chorume. Está tudo amarrado no disco?
Chorume não é um disco conceitual, na acepção do termo. Ele tem um clima, claro, que a gente quis reforçar, mas que veio das músicas. As referências à cidade de São Paulo eu acho naturais, somos de São Paulo e parece meio lógico que isso transpareça, porque é do nosso dia a dia que retiramos o material do qual construímos as canções. Faz parte de nossa identidade.

Por que demorou tanto pra sair o segundo disco? O que a banda fez durante esse período?
Demorou pela grana mesmo, até porque a gente ia lançar o disco com dezesseis músicas e tal. Foi isso. Durante esse período, a gente tocou pra caramba, compôs pra caramba, gravou o Chorume.

Nos divertimos muito, enfim. Fomos até o Rio a convite do Marcelo Janot e tocamos na Casa Rosa com o Eduardo Dussek e com o MoMo. Dividimos o palco de diversos outros shows com vários amigos, conhecemos muita gente bacana, como o Romulo Fróes, o Bazar Pamplona e o Mamma Cadela, o que é sempre legal, enriquecedor. Não paramos nunca, o que é mais importante. E, de quebra, ainda admitimos um novo e divertido integrante.

Fale sobre a entrada do Russo e sua contribuição para a banda.
O Russo, olhando em retrospecto, sempre esteve na banda. Ele tocava com o Carlones e comigo na banda que a gente teve antes do Numismata, fez backing vocal e cantou no Módulo Experimental Zero (demo do Brazilians...), ia aos ensaios. Aliás, ele ainda toca com o Carlones em pelo menos umas duas outras bandas.

Ele é nosso amigo, um cara de quem a gente gosta muito e com quem temos diversas afinidades. A entrada do Russo, pela intimidade que a amizade confere, ajudou, inclusive, para que as coisas pudessem se manter em harmonia. Acho que uma das coisas mais legais do Numismata é o fato de que, na banda, todos têm a mesma importância no processo.

O que o Russo traz de bacana é a energia inesgotável, né? O bom humor irresistível, aliados ao apuro vocal. Mas, além dessa primeira impressão do performer, o Russo também é um ótimo músico de apoio e é um compositor singular, cheio de ideias.

O Numismata tem vários compositores. Como é a dinâmica de composição da banda?
A dinâmica é diferente em cada caso, seja nas parcerias, seja na manufatura de cada música... Não tem exatamente um modus operandi. O que acontece mais comumente é que eu faça as letras, mas "Naïf" é uma música que é inteira do Piero, por exemplo. "Todo Céu e Essas Pequenas Coisas" é inteira minha. "Paciência", do Brazilians..., tem música e letra do Carlos H., o Carlones.

O que não quer dizer que ninguém opinou nelas ou que elas não possam ter mudado depois que postas no processo de arranjo da banda; os arranjos são mesmo todos coletivos, todo mundo vai metendo a colher e o tempero pra dar nesse samba do crioulo doido que é o Numismata. Inclusive o acaso.

Como rolou a participação do Luiz Melodia e o que ela representa para vocês?
Falando em acaso: eu estava conversando com Macalé depois de um show que ele fez com o Melodia e as Orquídeas do Brasil. Então o Melodia entra no camarim e eles começam a bater papo, dar risada. No meio da conversa, o Macao vira e fala pro Melodia, daquele jeito dele: "Esse aqui (apontando pra mim) é roqueiro. Tudo maluco. Regravou “Mal Secreto” no disco do Numismata, eu cantei com eles, numa versão moderníssima que você precisa ouvir!'. Nessas, o Melodia vira e manda essa: "Me convida também!", e eu, entre a euforia e a estupefação: "Sério?", nisso ele, batendo no pescoço, desafia: "Claro, cara! Negão aqui tem gogó!".

Caímos na risada e eu falei: "Olha, cara, eu vou ser chato, hein, é sério mesmo essa história, podemos combinar?", e ele, com a maior cara de sério: "Mas é claro, tá me tirando?". Praticamente uma intimação. E ele nem tinha ouvido Numismata ainda, que eu saiba.

O que mais dá pra falar do Melodia, não? O cara manda muito bem. O improviso dele, aquele solo de scat, é uma lição de música, né? Pro André principalmente, que tirou o solo para dobrar na guitarra!

O primeiro disco teve participação do Jards Macalé e o segundo do Luiz Melodia. Já pensaram no próximo figurão?
Queria ressaltar a participação do Carlos Fernando no Chorume. O cara, além de ser um gentleman, é excelente cantor. Ele tem andado meio fora dos palcos, porém, o que é uma pena. Os discos do Nouvelle Cuisine são impecáveis! E o disco dele com o Toninho Horta, Qualquer Canção, só com músicas do Chico Buarque, eu acho lindíssimo. "Viralatas" ficou demais, redondinha. Fora a aula de francês.

E não esqueçamos também de outras figuras com quem a gente já trabalhou, né? Maria Alcina, Skowa, Vanessa Krongold, Rita Maria, Thadeu Meneghini, Tatá Aeroplano, Maurício Bussab, Yuri Kalil...

Em relação às participações, é claro que já pensamos, mas não vamos contar pra não estragar a surpresa. Brincadeira. Essas participações não são uma fórmula que a gente segue, mas as coisas até agora têm sempre caminhado na direção delas acontecerem, graças a Deus, até porque a gente sempre aprende com essas feras todas. Claro que tem muita gente ainda com a qual nos sentiríamos honrados em dividir nosso espaço, então sempre estaremos abertos à possibilidade de ter essa gente bacana no pedaço.

Planos para o futuro?
Continuar tocando, fazendo cada vez mais shows pelo Brasil – quem sabe no exterior também – e músicas novas.

*Fotos por Fernando Angulo



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