Banda Gentileza junta sensibilidade "acadêmica" e democracia de ritmos para conceber estréia, produzida por P. Profeta; leia entrevista e baixe
19/11/2009
Com uma retaguarda efetiva de blogs, zines online e da mídia independente brasileira, a Banda Gentileza vem lançando seu álbum homônimo há mais ou menos uns 5 meses. Demos tipo um pontapé inicial em nossa coluna Preview, que depois foi sucedida por uma espécie de "reality" sobre as sessões de gravação assinado pela própria banda, e então pela disponibilização precoce de um link para todo o material, um link-oficial que circulou bem por aí. O lançamento em si ocorreu semana passada em São Paulo, com um show no Espaço +Soma.
A estratégia inteligente de lançamento, moderna (em fases, privilegiando um contato frutífero e generoso com os meios de imprensa e com os fãs, cujo número é crescente), desenha bem um quadro de consciência plena, e atualizada, em relação ao gerenciamento desse produto que vem perdendo cada vez mais importância e terreno no mercado de música mundial: o álbum, que é o conjunto elaborado que define a música e a obra musical de alguém, a grosso modo. É difícil gerenciar um disco hoje em dia, e eles fizeram isso com afinco.
Se a atuação perante o business - marcada justamente por essa esperteza de tornar plataformas próprias da banda & seu disco os meios "neutros" de divulgação, nutrindo-os sempre que possível - mostra um empenho promocional contemporâneo, até agressivamente contemporâneo, não é mentira que a música da banda, por outro lado, faz parte de outra sensibilidade: uma sensibilidade mais romântica, mais à tradição universitária, de encontro com amigos (não por acaso, a banda conta com 6 membros que revezam um número razoável de instrumentos e se descobriram em festas de Comunicação Social da UFPR), de revisão da ponte lírica entre as culturas "sobrepujadas" pelo primeiro-mundo e que agora reemergem via fenômenos simbólicos e não como o pop-balcânico de Beirut, a influência da África no pop global, a eleição de Obama e a tendência universal a um desejo subterrâneo de fim/ recomeço de tudo em bases mais puras.
Resumindo, o que a Gentileza faz é um pop-humanista-marchado-sambado-cigano-bailado, balcânico também, com letras em geral astutas sobre encontros e peculiaridades da vida (não importando muito o nome que se dê para isso, para essa congregação de elementos, mas o gosto dessas "ervas" juntas quando enroladas e misturadas em um mesmo maço). É um pacote, esse todo, que está fora da ordem talvez, mas encontra neste tempo um bom e novo potencializador.
Heitor Humberto, o comandante da banda, nessa entrevista fala sobre, entre outros temas, a democratização complicada que caracteriza o projeto. Democratização que, como impulso, define o espírito do som (nada mais democratizante do que um monte de ritmos de lugares variados unidos) e tem o poder de tornar as músicas reflexos de uma criação sempre coletiva. Isso apagaria impressões individuais de um autor, no caso as dele? Isso seria um problema? Segundo Heitor, essa não-autoria coletiva é, pelo menos no final da história de cada canção, bem-vinda, e a banda sente-se satisfeita com o resultado final. Resultado que se deve, palavras de Heitor, muito à mão assertiva e polidora do produtor Plínio Profeta, nome com currículo baseado em serviços de produção prestados a alguns artistas do time formalmente titular da nova música brasileira (Lucas Santtana, Tiê, Pedro Luís, etc).
A vontade de ingressar nesse time não é exatamente ocultada em entrevistas como esta (para o blog A Day In The Life), que pode ser uma boa introdução para o capítulo 2 da história que tentamos começar a contar no ano passado sobre a movimentação de Curitiba. Heitor, nessa entrevista a Tiago Agostini, reflete sobre o que falta e o que coloca em cheque o (ainda não-)acontecimento de uma banda de Curitiba como força desse time/ cenário "A". Ouvindo o disco de estréia, e guiando-se somente pelo o que as músicas são, dá para perceber que ao menos a intenção é mostrar que podem, por que não?, almejar uma convocação. Ao contexto histórico ideal, difícil alguém negar que eles pertençam.
O que é grande música para Heitor e a Banda Gentileza? Aquela que, por algum motivo, te dá vontade de ouvir uma quinta ou décima segunda vez.
Pensando o seguinte: definir, em termos de gênero, que tipo de música vocês fazem é bobeira. Mas acho que tem uma mais fácil: vocês fazem música com qual vontade? Por que a música de vocês, pra vocês, tem que surgir? Hoje é quase que por causa de um desafio muito prazeroso. Testamos alguns limites em cada música que está sendo criada (seja um riff, um refrão, uma ideia de linha). Tentamos agregar caminhos diferentes para cada construção, cortamos isso, adicionamos aquilo, prestamos atenção no que o guitarrista fala ou ignoramos as ideias do baterista. O resultado é medido pelo nível que a música "bateu" na gente e também pela quantidade de risadas que o processo de criação nos proporcionou. É uma necessidade de se divertir na mesma proporção em que queremos nos surpreender com as possibilidades.
A banda se formou em quais corredores? A que meio vocês se sentem pertencentes aí de Curitiba, clichezando mesmo: intelectuais, cineastas, universitários de comunicação...? A música de vocês, na opinião de vocês mesmos, já representa algo para esse meio? Apesar de nem todos os integrantes terem feito o curso, a banda surgiu em festas de Comunicação Social da UFPR nos idos de 2004 e 2005. Mas acho que isso não nos faz sentir pertencentes a nenhum segmento mais específico. O Emílio, por exemplo, é engenheiro e participa de mil congressos no Brasil inteiro. O Diogo é viciado em video game e participa de fóruns sobre as novidades dos últimos jogos. O Artur desmarca ensaio para jogar futebol com o pessoal da firma. Assim como frequentamos a Cinemateca ou a Bicicletada, às vezes vamos ao Baile do Pato. E acredito que nossa música não representa algo específico para nenhum meio. Quando a gente toca em eventos abertos, a receptividade do público costuma ser muito mais positiva do que em um festival indie, por exemplo. É incrível a quantidade de pessoas acima de 50 anos que nos procuram, que comentam detalhes de nossas músicas. Assim como de crianças que ficam dançando e dando risada durante esse tipo de evento. Inclusive, quem mais vendeu discos da nossa banda até agora foi o Diogo. E todos foram lá na companhia de energia elétrica onde ele trabalha. Todos para pessoas que não acompanham a música independente, mas que elogiaram muito o disco.
Como agregraram-se tantas pessoas numa banda só, como foi isso? Começamos como um quarteto: duas guitarras, baixo e bateria. O som era mais rock mesmo, mas com algumas influências de brasilidade e groove. Quando o Artur começou a tocar trompete, imediatamente o convidamos para entrar na banda e testar algumas linhas, para dar uma cara nova às músicas. Alguns meses depois, fomos convidados para gravar o segundo EP ao vivo e aí pensamos que seria uma boa ter pelo menos mais um metal e montar um mini-naipe. Já sabíamos que a Tetê tocava saxofone. Ela topou a empreitada e entrou para a banda também. Desde então, somos um sexteto que se reveza na hora de tocar os instrumentos. Em 2008, o Jota deixou a banda e entrou o Emílio, que trouxe ainda outros instrumentos à tiracolo.
Esse sentido coletivo da música de vocês deve ser pergunta freqüente e eu entendo que seja difícil (auto)criticá-lo. Mas o que ele tem de ruim? Ele pode às vezes transgredir o sentido de uma música que você compôs para outro, algo que na hora H, por aclamação, você se sente tímido em “cornetar”? Ahaha, sim! A democracia acaba sendo uma merda dentro da banda, mas há que se respeitá-la. Quando eu componho alguma coisa, já "visualizo" aquilo pronto, ouço na minha cabeça e penso "vai ficar massa!". Mas basta começar a mostrar a música para o pessoal e cada um começa a dar pitaco. De repente, todo mundo concorda que a música está ficando muito legal, "aqui dá para fazer tal coisa, repetir aquela parte ali". E aí eu digo "não foi bem isso que eu pensei", mas já era. O processo é autônomo, não é o autor da música que vai controlar o seu rumo. É aquele papo do desafio. Mas isso não é ruim. Essa acaba sendo a graça. Mas às vezes é preciso impor algum limite, dizer "opa, opa!", se não acaba até perdendo um pouco de identidade. Fora isso, ser um coletivo exige um pouco mais de política. Não dá para sair falando qualquer coisa pois qualquer ideia pode ter seis interpretações diferentes. Ou então duas: a sua e a dos outros cinco. Mas tudo isso a gente tem levado numa boa.
Vocês têm visto muitas críticas positivas em relação ao disco, eu diria mesmo críticas colaborativas (ainda que resenha seja um termo mais exato nesse âmbito), no sentido de que parecem, para além de expressões legítimas de sentimentos positivos sobre o álbum, parte da “construção” do disco como produto nesse segmento relativamente pequeno em que vocês estão atuando. Algo um pouco parecido com o que rolou, por ex., num certo momento, em maior escala, da carreira do Los Hermanos, que eram a “banda oficial”. O que vocês acham dessa idéia de “construção”? Ela é legal, deveria ser diferente um pouco, o que vocês pensam? Essas resenhas são, na maioria, textos de blogs, escritos por pessoas de fora da mídia e que gostaram do disco. Como você disse, expressões de sentimentos positivos. Acho que essa construção nada mais é do que consequência do sentimento legítimo que você citou. Eu acho válido. São pessoas de um mesmo nicho que se interessam por coisas semelhantes, seja o novo disco do Slayer ou seja o pão de queijo estragado que o autor do blog comeu no café da manhã. Não vejo essa construção direcionando a opinião de algum desavisado. E temos a total consciência de que, em certos nichos, deve estar acontecendo uma demolição do disco como produto.
O que vocês escutavam na época de feitura do álbum? Diogo: Police, Wilco, Andrew Bird Diego: Vampire Weekend Artur: Man Man, Fleet Foxes, Pink Martini, Leningrad, Móveis Coloniais de Acaju Tetê: Noah and the Whale, Rubin, Wilson Simonal, Nevilton Emílio: Dave Brubeck, Brendan Benson, Ná Ozzetti, Egberto Gismonti, Wilco, Thom Yorke, Feist Heitor: Fela Kuti, Franz Ferdinand, Curumin, Max Raabe
O que escutam agora? Diogo: Beatles, Them Crooked Vultures, Charme Chulo Diego: The Clash Artur: Kanda Bongo Man, Mahala Rai Banda, Quantic Tetê: Raveonettes, Scarlett Johanson e Pete Yorn, Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, Charme Chulo Emílio: Novos Baianos, Wes Montgomery, João Nogueira, Paulo César Pinheiro, Madeleine Peyroux Heitor: The Doors, Otto, Beto Villares, Bonsucesso Samba Clube, Otis Redding
Vocês acham que estão lidando, a grossísimo modo, com uma geração e com um segmento principalmente, que não espera nada mais do que o próximo Los Hermanos (lirismo brasileiro tradicional misturado e aberto a informações de outras culturas, digamos, “emergentes”)? Acho que não. Até porque me dá a impressão de que as pessoas tem hoje uma certa relutância em aceitar músicas que remetam ao Los Hermanos. Quando algumas poucas pessoas nos comparam a eles, parece que é sempre num sentido pejorativo: "é legal, mas parece Los Hermanos". Vejo duas coisas equivocadas aí: a primeira é essa comparação preguiçosa (é difícil achar uma banda atual que não tenha sido influenciada por eles). A outra é essa negação da importância do grupo. Parece que foi algo que passou e pronto, que não deve ser relembrado ou remexido.
Então eu acho que as pessoas não estão esperando nada, mas tendem a responder de forma ativa quando surge alguma música cujo lirismo conversa com elas. Se estiver associada a uma música boa, melhor ainda.
Vocês são fãs de Los Hermanos, do que eles representaram, trouxeram, etc? Todos nós fomos muito fãs de Los Hermanos. É inegável a influência deles no rock nacional, principalmente com o Bloco. É muito perceptível que houve um momento antes do Bloco e depois do Bloco. Na minha opinião, naquele momento eles nivelaram por cima o rock nacional. O cuidado com arranjos e letras, obviamente, não foi algo inédito, mas naqueles idos de 2001 e 2002, isso não era muito visto em grande escala. E eu, como ouvinte, senti muita sinceridade naqueles álbuns deles. Algo que eu costumava sentir com mais intensidade nas bandas estrangeiras que ouvia na época. Foi um baque perceber que uma música de qualidade poderia levar aos shows milhares de pessoas que cantavam absolutamente todas as músicas do início ao fim. E isso tudo sem um apelo midiático. Eu, pelo menos, nunca havia vivenciado isso. Eles abriram uma porta pela qual depois passaram Mombojó e Móveis, por exemplo. Fico muito feliz de ter participado desse momento e de ter sido influenciado pelas músicas do Camelo e do Amarante.
Quando vocês escolheram ou disseram o “sim” do Plínio Profeta, qual era exatamente o efeito e o impacto que vocês estavam buscando nessa escolha? Primeiramente, queríamos alguém que pudesse cortar alguns excessos, alguns exageros que sabíamos que havia em nossas músicas, mas que não tínhamos muita ideia de como resolver isso por conta propria (a tal da democracia). Era necessário que fosse alguém de fora. Além disso, desejávamos trabalhar com alguém que compreendesse nossa proposta de reunir vários estilos dentro de um mesmo álbum e que essa "bagunça" icasse com uma unidade, uma identidade. Fora essa parte, ainda precisávamos de alguém que conseguisse, através da captação, mixagem e masterização, extrair o melhor resultado sonoro possível. Daí a vontade de convidar um profissional com um puta currículo. A escolha do Plínio não foi à toa. Sabíamos que ele tinha referências suficientes e diversas, pois trabalhou com artistas que, direta ou indiretamente, tem alguma influência no som da Banda Gentileza (Lenine, Lucas Santtana, Pedro Luís e a Parede, O Rappa, Katia B., Tiê, Xis, entre muitos outros). Tínhamos certeza que as ideias dele se encaixariam muito bem com as nossas. E todo o processo foi melhor do que a gente esperava. A sintonia entre a banda e o Plínio nos surpreendeu.
Como seria sem ele? Em primeiro lugar, as músicas provavelmente ficariam desorganizadas, já que para nós é complicado ouvir a música sem nenhum vício. Acredito que também perderíamos horas valiosas dentro do estúdio tentando decidir o que gravar e como gravar, além de ficar nervosos com os prováveis erros. Com o Plínio, tudo fluiu muito tranquilamente, "você: grava lá o baixo. Beleza, agora vamos fazer a viola caipira. Vou querer um microfone em tal posição". Sem falar na mixagem, que sem dúvida alguma seria uma tortura. A gente palpitou bastante nas mixes, mas quem dava a palavra final era sempre o Plínio. Se não tivesse alguém para cumprir esse papel de produtor, se fosse apenas um técnico obedecendo os nossos pedidos, estaríamos mixando até agora, sempre em busca de um inalcançável resultado perfeito. Acho que no fim das contas, a gravação do CD nos traria mais brigas e nervosismo do que a alegria que, de fato, nos proporcionou.
19/11/2009 stella-viva / STELLA.VIVA@YAHOO.COM.BR Banda Gentilez
O disco realmente tá muito bonito. Ficamos muito felizes com os comentários positivos que vocês andam recebendo.
Um abraço,
Fernando - stella-viva
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